Terça-feira 29

Glossário do coração 

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As doenças cardiovasculares causam uma em cada três mortes no mundo, tornando-as a principal causa de morte atualmente. Por detrás deste número, existe uma longa lista de doenças, cujos sintomas nem sempre são evidentes, e fatores de risco que podem passar despercebidos até as suas consequências se tornarem irreversíveis.

É por esta razão que a investigação cardiovascular avança em três direções cruciais e complementares: em primeiro lugar, prevenir antes que surjam os primeiros sintomas; em segundo lugar, diagnosticar com maior precisão; e, por último, desenvolver tratamentos capazes de reparar os danos e restabelecer a função cardíaca, uma vez desenvolvida a doença. 

Hoje, no Dia Mundial do Coração, destacamos alguns dos conceitos que estão no centro do trabalho desenvolvido pela nossa comunidade de investigadores. Para além de definirem o presente, estes conceitos abrem novos caminhos para o futuro destes três campos de investigação, com um objetivo comum: melhorar os cuidados com o nosso coração.

Apresentamos-lhe o glossário do coração 

 

PREVENÇÃO

Oitenta por cento das doenças cardiovasculares são evitáveis. Antecipar-se a essas doenças é um dos objetivos da investigação atual. Conhecer o estado do nosso coração e compreender o que pode levá-lo a adoecer prematuramente são dois elementos fundamentais para o conseguir.

Idade cardíaca

Do latim aetāte- e do grego kardiakós 

  1. f. Estimativa da idade biológica do sistema cardiovascular de uma pessoa, calculada com base em fatores de risco como a pressão arterial, o colesterol, o tabagismo, o peso, a atividade física e os antecedentes médicos.

São cada vez mais detetados problemas cardiovasculares em idades precoces, mesmo antes dos 40 anos. O que é que está a fazer com que o nosso coração envelheça mais cedo? E, acima de tudo, será que podemos evitá-lo?

Borja Ibáñez

O investigador e bolseiro da Fundação ”la Caixa” Borja Ibáñez (Centro Nacional de Investigaciones Cardiovasculares, CNIC) está a estudar por que razão as doenças cardiovasculares surgem cada vez mais cedo e como podemos antecipar-nos a elas. No nosso artigo Qual é a idade do seu coração?, explora, juntamente com outros investigadores, as causas desta tendência e os desafios que a sua prevenção coloca.

 

Risco cardiovascular

Do castelhano risco, do grego kardía e do latim vascŭlu- + -ar 

  1. m. Probabilidade de sofrer um evento cardiovascular grave, como um enfarte ou um acidente vascular cerebral (AVC), devido a uma doença do coração ou dos vasos sanguíneos.

É possível saber qual é a probabilidade de sofrermos um enfarte ou um AVC antes de isso acontecer? A resposta depende de vários fatores: idade, pressão arterial, colesterol, tabagismo, alimentação e sedentarismo, entre outros. Alguns podem ser alterados e outros não, mas conhecê-los permite avaliar o risco cardiovascular e agir antes do aparecimento da doença.

Valentí Fuster

Há décadas que o investigador Valentí Fuster (CNIC) estuda formas de identificar e reduzir os fatores que aumentam o risco cardiovascular. No artigo deste blogue intitulado Quatro conselhos para prevenir as doenças cardiovasculares, partilha algumas das estratégias para reduzir este risco e cuidar da nossa saúde cardiovascular.

 

DIAGNÓSTICO

Ressonância magnética de perfusão

Do latim resonantĭa, magnetĭcu- e perfusiōne-

  1. f. Técnica que avalia a circulação sanguínea em tempo real em órgãos como o cérebro e o coração.

A doença coronária é a principal causa de morte a nível mundial. Surge quando o fluxo sanguíneo para o coração é restringido, e a sua deteção precoce é fundamental para se poder agir antes que provoque consequências potencialmente graves.

Uma das técnicas para estudar a doença coronária é a ressonância magnética cardíaca de perfusão, um exame não invasivo que permite observar como o sangue chega ao coração. No entanto, as imagens obtidas ainda apresentam limitações e a interpretação dos dados pode ser complexa.

À esquerda: Teresa Matías Correia; à direita: ressonância magnética de perfusão.

Para aperfeiçoar esta técnica, a investigadora Teresa Matias Correia (Centro de Ciências do Mar do Algarve, CCMAR) está a combinar modelos matemáticos do fluxo sanguíneo e inteligência artificial para obter imagens mais precisas e melhorar o diagnóstico. Quer saber mais? Leia o artigo Prevenção, diagnóstico e tratamento: a ciência dedica-se aos cuidados com o coração.

 

TRATAMENTO

Quando a doença cardiovascular se manifesta, o desafio consiste em reparar os danos, recuperar a função cardíaca e melhorar a qualidade de vida dos doentes. Para tal, a investigação explora estratégias cada vez mais precisas, desde a estimulação da regeneração dos tecidos até ao desenvolvimento de novos dispositivos, medicamentos e terapias.

 

Angiogénese

Do grego aggeĩon e génesis 

  1. f. Processo biológico através do qual se formam novos vasos sanguíneos a partir de outros já existentes.

Quando ocorre um enfarte, parte do tecido cardíaco pode ficar danificada de forma irreversível. E se pudéssemos ajudar o coração a recuperar parte da função perdida?

Left: Rui Benedito; right: angiogenesis.

O investigador Rui Benedito (CNIC) e a sua equipa estão a estudar formas de estimular a formação de novos vasos sanguíneos através de terapias génicas e farmacológicas. Esta estratégia poderá abrir novos caminhos para reparar os danos causados ao coração por um enfarte e prevenir o aparecimento de insuficiência cardíaca. Descubra o projeto no blogue.

 

Ressincronização cardíaca sequencial

De ressincronizar + -ção, do grego kardiakós e de sequência + -al

  1. f. Técnica de estimulação elétrica destinada a restabelecer o ritmo natural do coração em pessoas com insuficiência cardíaca.

À medida que a insuficiência cardíaca avança, alguns doentes necessitam de um pacemaker biventricular para restabelecer a sincronização da contração dos ventrículos. No entanto, cerca de um em cada três não responde adequadamente a esta terapia.

À esquerda: Adelino Leite-Moreira; à direita: ressincronização cardíaca sequencial.

Para melhorar estes resultados, a equipa do investigador Adelino Leite-Moreira (Universidade do Porto, UP) está a desenvolver uma alternativa: a ressincronização cardíaca sequencial (SECRET), um dispositivo capaz de se adaptar à ativação elétrica do coração e que pode ser implantado através de técnicas minimamente invasivas. O protótipo encontra-se atualmente na fase pré-clínica. Gostaria de saber mais? Leia o artigo do nosso blogue de investigação.

 

Válvula cardíaca mecânica

Do latim valvŭla- e do grego kardiakós e mekanikós

  1. f.  Dispositivo artificial de elevada durabilidade (fabricado com materiais como carvão pirolítico e titânio) concebido para substituir uma válvula cardíaca danificada.

É possível substituir uma válvula cardíaca mecânica sem recorrer a uma cirurgia de coração aberto? Um estudo liderado pelos investigadores Alberto San Román (Hospital Clínico Universitario de Valladolid) e Borja Ibáñez (CNIC) demonstra que sim.

À esquerda: Alberto San Román; ao centro: válvula cardíaca mecânica; à direita: Borja Ibáñez.

Esta nova técnica poderá oferecer uma alternativa menos invasiva para doentes de idade avançada com doenças valvulares. O projeto foi também protagonista de um Instantâneo do mês, em que a arquiteta e artista visual Maria Rius explorou este avanço sob uma perspetiva artística.

 

Epicárdio

De ep(i)- + -cárdio 

  1. m. Membrana que reveste o coração, fundamental para a formação deste e para a regeneração do tecido cardíaco na idade adulta. 

Há anos que a investigação procura regenerar o coração após um enfarte com recurso a células estaminais, mas os resultados continuam a ser limitados. Sabemos agora que o próprio epicárdio pode desempenhar um papel fundamental na reparação do tecido cardíaco.

À esquerda: Ofelia Martínez; à direita: epicárdio.

A investigadora Ofelia María Martínez Estrada (Universitat de Barcelona, UB), juntamente com a sua equipa, demonstrou que as células do epicárdio participam na formação de tecido saudável após um enfarte. Esta descoberta abre novos caminhos para o desenvolvimento de tratamentos regenerativos. Saiba mais no artigo A investigação está a avançar: novos horizontes na prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças cardiovasculares.

 

Fotofármaco cardioprotetor

Do grego phõs, photós, phármakon e kardía, e do latim protectōre-

  1. m. Medicamento ativado pela luz que dilata o vaso obstruído durante uma angioplastia, atuando de forma localizada para reduzir a necessidade de tratamentos prolongados e os respetivos efeitos secundários.

Um dos grandes desafios da farmacologia é conseguir tratamentos mais eficazes e precisos, com menos efeitos secundários. A fotofarmacologia procura alcançar esse objetivo através de fármacos que só se ativam quando expostos à luz, permitindo controlar onde, quando e durante quanto tempo atuam.

À esquerda: Amadeu Llebaría; à direita: fotofármaco cardioprotetor.

A equipa de Amadeu Llebaria (Institut de Química Avançada de Catalunya, IQAC-CSIC) está a investigar esta estratégia para reduzir os danos que ocorrem no coração durante um enfarte e avançar no sentido de tratamentos cardioprotetores mais localizados e precisos. 

Pode ver a entrevista no debate sobre investigação na área da saúde Será que um medicamento ativado pela luz pode restaurar a visão ou reduzir lesões cardíacas?.

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