Qual é a idade do seu coração?
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Em 2015, o sistema de saúde britânico (NHS) surpreendeu toda a população com o Heart Age Test, uma calculadora online gratuita que estimava a “idade cardíaca” do utilizador com apenas cinco dados básicos: peso, altura, tensão arterial, colesterol e antecedentes familiares.
O resultado, no entanto, foi um choque de realidade para muitos: 80% descobriram que o seu coração era mais velho do que eles.
Por detrás desta curiosidade, esconde-se uma tendência preocupante. Cada vez mais são detetados enfartes em pessoas jovens, mesmo com menos de 40 anos. O que é que se passa? Porque é que o coração começa a falhar mais cedo? E o mais importante: podemos evitá-lo?
Por ocasião do Dia Mundial do Coração, conversámos com três investigadores para entender o que está a mudar e como a prevenção – desde a infância até à vida adulta – pode ajudar a proteger o coração a tempo.
Detetar o risco
Um “ataque cardíaco” ocorre quando uma parte do coração deixa de receber sangue e oxigénio, e as células dessa área começam a morrer. A causa mais comum? Um coágulo formado pela acumulação de gordura ou colesterol nas paredes das artérias, que impede o fluxo normal do sangue.
Mas será verdade que estão a ocorrer cada vez mais em jovens? «Os casos têm aumentado, mas as causas são variadas», afirma Borja Ibáñez Cabeza, diretor científico do Centro Nacional de Investigaciones Cardiovasculares e cardiologista no Hospital Fundación Jiménez Díaz, em Madrid. Por um lado, as ferramentas de diagnóstico melhoraram, o que nos permite detetar novos casos mais facilmente. Por outro lado, as mudanças no estilo de vida da população anteciparam o aparecimento de fatores de risco em idades mais precoces.

Borja Ibáñez Cabeza
Os dados confirmam: de acordo com a Fundação Espanhola do Coração (FEC), 35% das crianças e adolescentes em Espanha apresentam dois ou mais fatores de risco cardiovascular, como sedentarismo, má alimentação, excesso de peso e consumo de tabaco e outras substâncias.
«O abandono da dieta mediterrânica e o aumento da inatividade física estão a fazer disparar os números da obesidade», alerta Borja. A isto soma-se o ressurgimento do tabaco entre os jovens, especialmente em algumas populações femininas, onde os números são ainda mais alarmantes.
Apesar disso, Ibáñez apela a que se evite o alarmismo: «Não estamos perante um aumento dramático dos enfartes entre os jovens, mas sim perante um agravamento dos fatores de risco cardiovascular em todos os grupos etários. É uma tendência preocupante, mas não alarmante que, em vez de causar pânico, nos deve fazer refletir sobre como podemos melhorar a prevenção desde tenra idade», diz Borja.
Durante a pandemia, alguns meios de comunicação apontaram outra possível causa para este aumento: a COVID-19. Mas qual é a verdade?
«A associação existente entre infeções virais e acidentes cardiovasculares é conhecida há décadas, por exemplo, com a gripe. E a COVID-19 segue um padrão semelhante», explica Ibáñez. «Não é um fenómeno único, mas sim parte do que acontece com muitas infeções que ativam o sistema imunitário e aumentam a inflamação. Por este motivo, a vacinação é importante: previne complicações que, em alguns casos, podem ser graves».
Além do estilo de vida, há outro fator – mais silencioso e menos controlável – a ter em conta: a genética da pessoa. Que papel está a desempenhar?
«Em famílias com histórico de doenças cardiovasculares em idades precoces – homens antes dos 55 anos e mulheres antes dos 65 –, costumamos suspeitar de uma causa hereditária», explica Ramón Brugada, investigador do Instituto de Investigação Biomédica de Girona Dr. Josep Trueta (IDIBGI).

Ramon Brugada
O problema é que a identificação deste risco genético não é fácil. «Ainda não dispomos de ferramentas clínicas suficientemente precisas para detetar os fatores genéticos envolvidos», diz Brugada. «Trata-se de uma genética muito complexa e multifatorial».
Por esta razão, o seu laboratório está a investigar o papel de certos genes relacionados com a trombose – a formação de coágulos – no enfarte precoce. «Tudo indica que sim, e o nosso objetivo é desenvolver um algoritmo genético que permita identificar as pessoas em risco antes de sofrerem um evento. Só assim poderemos tomar medidas preventivas a tempo».
Antecipação dos efeitos
Um dos grandes desafios da doença coronária é a sua evolução silenciosa. Pode demorar décadas desde o momento em que começa a desenvolver-se até apresentar sintomas evidentes. Por isso, cada vez mais pesquisas se concentram em encontrar sinais subclínicos – anteriores a qualquer sintoma evidente – que permitam detetar a aterosclerose antes de ela causar danos irreversíveis.
É este o objetivo do projeto conjunto de Borja e Teresa Matias Correia, investigadora do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR), centrado na conceção de uma técnica melhorada de imagem cardíaca, baseada na ressonância magnética (RM): não invasiva, capaz de detetar mais cedo e com maior precisão a doença isquémica do coração.

Teresa Matias Correia
«Ao contrário dos exames padrão, como a angiografia coronária – que é invasiva e só deteta grandes bloqueios através de raios X – a nossa técnica permite-nos ver como o sangue flui pelo músculo cardíaco, mesmo pelos vasos mais pequenos», explica Teresa. Isto permite detetar os primeiros sinais da doença, mesmo quando as artérias ainda não apresentam estreitamentos visíveis. Esta técnica é especialmente relevante em doentes jovens, em que as alterações podem ser subtis, mas significativas.
Além disso, esta tecnologia promete gerar mapas quantitativos que mostram, em números precisos, a quantidade de sangue que chega a cada zona do coração. Isto confere uma objetividade e fiabilidade ao diagnóstico que vai além do que é possível observar a olho nu.
Escutar os sinais
Embora tenhamos tendência para pensar num enfarte como algo súbito, abrupto e inevitável, a realidade é que o corpo avisa, embora nem sempre de forma óbvia.
«A dor torácica opressiva, que pode irradiar para o braço ou para a mandíbula, é o sintoma clássico», diz Borja Ibáñez. «No entanto, podem surgir sinais mais subtis, como desconforto digestivo, falta de ar ao fazer exercício ou fadiga incomum.» Nas mulheres, estes sintomas são ainda mais frequentes e, nos jovens, são muitas vezes confundidos com stress ou fadiga, o que pode atrasar o diagnóstico.
Por isso, além da prevenção médica, os especialistas enfatizam a importância de conscientizar a população desde a infância. «É essencial que os jovens – mesmo que sejam saudáveis – consultem um médico, especialmente se houver antecedentes familiares», diz Ramon. «E, sobretudo, que adotem hábitos saudáveis, controlem a tensão arterial e o colesterol a partir dos 20 anos. Esta prevenção pode fazer a diferença ao longo dos anos».
A boa notícia é que a ciência está do nosso lado. «Em breve, poderemos detetar doenças cardíacas antes do aparecimento dos sintomas e tratá-las a tempo, mesmo que a pessoa ainda não saiba que tem um problema», explica Teresa. «No entanto, a tecnologia, por si só, não é suficiente: precisamos de informação, compromisso pessoal, romper com a ideia de que os enfartes são algo que só acontece a pessoas idosas e começar a cuidar de nós mais cedo. Porque proteger o seu coração é dar a si mesmo a oportunidade de viver mais e melhor».
