Instantâneo do mês “Sopa de cozido catalã”
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À primeira vista, a imagem parece um desenho improvisado: linhas sinuosas, laços que se repetem e formas que flutuam num espaço acinzentado. Poderia ser um rabisco abstrato ou o esboço de um projeto de arquitetura impossível. No entanto, o que vemos é o interior de um coração durante um procedimento médico pioneiro.
Esta imagem capta um momento crucial de uma investigação que demonstra, pela primeira vez, que é possível substituir uma válvula cardíaca metálica previamente implantada sem necessidade de cirurgia de coração aberto. Trata-se de um avanço, publicado no European Heart Journal, que pode mudar o tratamento de muitos doentes de idade avançada com valvulopatias.
Para analisar esta imagem sob duas perspetivas complementares, a artística e a científica, contámos com Maria Rius, arquiteta e artista visual, e com os médicos Alberto San Román (Hospital Universitário de Valladolid) e Borja Ibáñez (Centro Nacional de Investigaciones Cardiovasculares, CNIC), investigadores responsáveis pelo estudo.
Começámos com Maria.
Maria, que obras artísticas lhe faz lembrar esta imagem? E que título lhe daria?
M: A imagem faz-me pensar nos desenhos de Lina Bo Bardi, uma das minhas arquitetas favoritas. Na sua obra, conjugou sempre o movimento moderno com o que aprendia da cultura popular do local. Fez uns desenhos lindos a linha e aguarela, e esta imagem poderia ser um deles.

Esquerda: Lina Bo Bardi, Perspective of the São Paulo Museum of Art with explanation of the porticos and substructure, ca. 1957-1968, graphite, colored pencil, ink on cardboard. Fotografia de Henrique Luz. Direita: Lina Bo Bardi, Perspective of the São Paulo Art Museum, 1965, ink, pastel on parchment paper. Fotografia de Henrique Luz.
Há algo na composição e no traço errático de algumas partes que me transporta também para a pintura primitiva e para algumas obras de Basquiat e Marria Pratts.

Esquerda: Black Tar and Feathers, 1982, Jean-Michel Basquiat. Direita: Sento una música dintre del cap (Transformació d’un pensament borrós) [Ouço uma música na cabeça (Transformação de um pensamento difuso)], 2021, Marria Pratts.

Esquerda: John Hejduk, sketch for “Victims”, 1986. Direita: “Victims” de John Hejduk. Fotografia de Laura Sepúlveda.
Por este motivo, chamar-lhe-ia Olla barrejada (sopa de cozido catalã).

Maria Rius
Alberto, Borja, o que é que estamos realmente a ver nesta imagem?
A e B: A imagem mostra diferentes fases de um novo procedimento cardíaco que permite reparar válvulas cardíacas mecânicas defeituosas, sem necessidade de cirurgia aberta. Mostra cateteres e dispositivos a serem introduzidos no coração através da artéria femoral, na virilha, para intervir numa válvula aórtica previamente implantada.
O estudo aborda um problema clínico cada vez mais comum. Muitos doentes foram submetidos a uma cirurgia há já alguns anos para implantar uma válvula aórtica metálica. Com o tempo, estas próteses podem degenerar e deixar de funcionar corretamente.
Porque é que este novo procedimento é tão importante?
A e B: Tradicionalmente, a única solução consistia em voltar a operar o doente através de uma cirurgia de coração aberto. No entanto, muitos destes doentes são atualmente muito idosos e apresentam um risco cirúrgico demasiado elevado.

Alberto San Román
O nosso trabalho demonstra, pela primeira vez, que é possível reparar ou substituir estas válvulas metálicas através de um procedimento completamente percutâneo, ou seja, sem necessidade de cirurgia aberta.
Como é que funciona exatamente?
A e B: Em vez de se abrir o tórax, introduz-se um cateter na artéria femoral, que depois é guiado até ao coração mediante técnicas de imagiologia.
Com este sistema, a válvula antiga pode ser parcialmente removida e pode ser colocada uma nova prótese no seu interior. Tudo isto é feito dentro dos vasos sanguíneos, sem necessidade de uma grande intervenção cirúrgica.

Borja Ibáñez
Antes de ser aplicado em doentes, o procedimento foi testado num modelo animal muito semelhante ao humano, o porco. Implantámos válvulas metálicas e, posteriormente, substituímo-las com sucesso.
Uma vez demonstrada a sua exequibilidade e segurança, foi aplicado numa primeira série de doentes selecionados, com resultados excecionais.
Não podemos terminar esta entrevista sem a resposta a uma questão fundamental. Maria, qual é, na sua opinião, a relação entre ciência e arte?
M: Sempre achei que ambas as disciplinas partilhavam algo fundamental: a curiosidade. Tanto a ciência como a arte partem da observação do mundo, colocando questões e explorando possíveis respostas.
Arquitetura de uma solução
Como sugeriu Maria Rius Ruiz, a imagem assemelha-se a uma sopa de cozido catalã, um conjunto de linhas que se entrelaçam e flutuam num espaço difícil de decifrar.
No entanto, o que à primeira vista parece ser um desenho caótico é, na realidade, um mapa extremamente preciso do interior do coração, o traçado de um novo procedimento capaz de melhorar a esperança e a qualidade de vida de milhares de pessoas.
