Reescrever a menopausa
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Tristeza, névoa mental, dor durante as relações sexuais, perda de memória, de massa óssea e de libido, incontinência, enxaquecas, afrontamentos, risco de enfarte e insónias. Esta não é uma lista de efeitos secundários de um tratamento agressivo, mas sim de sintomas da menopausa, uma fase pela qual todas as mulheres passam – e que, em muitos casos, dura um terço da sua vida –, mas sobre a qual sabemos muito pouco, tanto a nível médico como social.
Segundo uma revisão publicada na revista Cell, 85% das mulheres na menopausa não recebem um tratamento eficaz e aprovado pelas agências reguladoras. Felizmente, esta lacuna – de recursos e de assistência – está a começar a ser preenchida. Cada vez se fala mais sobre a menopausa, cada vez se investe mais na investigação e as prateleiras enchem-se de produtos, com maior ou menor base científica, que prometem aliviar os sintomas.
Sim, a menopausa está finalmente a deixar de ser tabu e a passar para a atualidade, dominando não só debates científicos e sociais, mas também importantes quotas de mercado. Talvez por isso tenha chegado o momento de nos questionarmos: até que ponto compreendemos o seu impacto na saúde física e mental? E, principalmente, que tratamentos eficazes estão já disponíveis e que tratamentos se afiguram no horizonte?
Números
«A menopausa é definida como o desaparecimento do ciclo menstrual durante mais de 12 meses consecutivos, o que ocorre normalmente entre os 45 e os 52 anos», explica a Dra. Glòria Borràs, ginecologista e bolseira da Fundação ”la Caixa”. «Antes, por volta dos 40, instala-se a perimenopausa, uma fase em que surge a irregularidade do ciclo ovárico e os primeiros sintomas.»
«A sua chegada depende da reserva ovárica de cada mulher, ou seja, da quantidade e da qualidade dos óvulos», acrescenta a Dra. Glòria Borràs. Depois, quando esta reserva se esgota, os níveis hormonais de estrogénio e progesterona caiem a pique. E é nesse momento que começam a manifestar-se alguns dos mais de 40 sintomas associados à menopausa.
Os números são impressionantes. Segundo a Associação Espanhola para o Estudo da Menopausa (AEEM), mais de 90% das mulheres têm algum dos sintomas e entre 25 e 50% têm-nos com intensidade grave. Cerca de 80% sofrem alterações neurológicas, como insónias e afrontamentos, causadas pelo cérebro ao tentar regular a temperatura corporal. Mais de 50% revelam sintomas depressivos e cerca de 60% falam de névoa mental e falhas de memória.

Glòria Borràs
Por detrás destes dados escondem-se realidades que «afetam não só a saúde, mas também o trabalho, as relações pessoais e a qualidade de vida», indica a Dra. Glòria Borràs. Foi precisamente este impacto, tanto individual como coletivo, que colocou a menopausa na ordem do dia. Mas porquê agora?
Um fenómeno social e económico
A pressão demográfica foi um fator-chave. Tal como indica a Organização Mundial da Saúde, a sociedade está a envelhecer e, em 2025, já há mais de 1000 milhões de mulheres na menopausa no mundo inteiro, o que equivale a 12% da população mundial.
Outro motivo é a perda de produtividade no trabalho causada pelos sintomas, estimada em mais de 150 000 milhões de dólares (139 557 milhões de euros) a nível mundial, de acordo com a consultora Frost & Sullivan.
E, por último, o aparecimento da chamada “febre do ouro da menopausa”. Onde, durante décadas, existiu uma lacuna de conhecimento, investigação e educação sexual, as empresas encontraram um nicho de mercado – avaliado em 600 000 milhões de dólares anuais –, que deu origem a uma avalanche de produtos de eficácia duvidosa ou com preços desproporcionais em relação aos seus benefícios.
No entanto, já apareceram os primeiros opositores. Em março de 2024, foi publicado um artigo na revista The Lancet que alertava para os riscos da medicalização excessiva desta fase da vida da mulher e exigia uma mudança de paradigma: mais informação para as mulheres, mais decisões partilhadas e mais apoio para uma assistência integral.
Em Espanha, já estão a ser dados os primeiros passos. O Congresso dos Deputados aprovou em fevereiro, pela primeira vez, um pacote de medidas específico para a menopausa, orientado precisamente para o cumprimento destes três objetivos.
Existem alternativas terapêuticas?
«Dispomos de muitos suplementos e tratamentos que podem ser adaptados a cada mulher, de acordo com as suas necessidades e preferências», afirma a Dra. Glòria Borràs. «O primeiro passo é, muitas vezes, trabalhar o estilo de vida: alimentação, exercício físico e gestão do stress. Estes fatores influenciam diretamente a microbiota, que sabemos hoje desempenhar um papel fundamental na saúde intestinal, vaginal e até mesmo cerebral.»
A Dra. Glòria Borràs acrescenta: «Depois, temos os suplementos nutricionais – alguns dos quais têm, efetivamente, uma base científica – e os tratamentos farmacológicos não hormonais, indicados principalmente para mulheres com contraindicações, como as sobreviventes de cancro. E, por último, a terapêutica hormonal de substituição (THS), baseada na administração de estrogénios sintéticos que compensam o declínio hormonal».
O caso da THS é paradoxal. Durante anos, foi a opção de referência, até que o estudo Women’s Health Initiative (WHI, 2002) a associou a um maior risco de cancro da mama e problemas cardiovasculares. O impacto foi imediato: a sua utilização diminuiu. Contudo, os próprios autores reconheceram posteriormente que os dados tinham sido mal interpretados e, hoje, um consenso internacional de sociedades médicas apoia novamente a THS. Ainda assim, em Espanha, só é utilizada por 4% das mulheres com sintomas menopáusicos e por 2,3% das mulheres na perimenopausa, muito aquém dos 20% alcançados em 2000.
Entretanto, a investigação está a avançar em novas vias que oferecem terapias específicas para sintomatologias concretas. É o caso de Joan Roig, investigador da Fundação ”la Caixa”, que estuda o potencial da hormona Klotho como tratamento para a osteoporose. «Esta proteína, conhecida como “molécula antienvelhecimento”, protege-nos contra os danos oxidativos, inflamatórios e da senescência», explica Joan Roig e acrescenta: «em laboratório, vimos que, ao aumentar os seus níveis em ratos, estes ficavam protegidos contra a osteoporose associada à idade».

Joan Roig
Agora, a sua equipa de investigação, integrada na unidade mista de investigação da Universitat Autònoma de Barcelona (UAB) e do Vall d’Hebron Instituto de Investigación (VHIR), pretende averiguar se é possível obter o mesmo resultado com a osteoporose associada à menopausa. Caso se confirme que é possível, abrir-se-á a porta a um novo medicamento com grande potencial, capaz não só de travar a doença, mas também de estimular a regeneração óssea.
Por último, e para além dos tratamentos clássicos, alguns especialistas apresentam uma alternativa ainda mais disruptiva: atrasar, ou inclusivamente eliminar, a menopausa para evitar os sintomas mais graves. Uma proposta polémica, sim, mas que lança o debate sobre até que ponto cuidarmo-nos na velhice é sinónimo de atenuar os seus efeitos e inclusivamente erradicá-la.
Um novo capítulo
«A menopausa, à semelhança de tantos outros aspetos da saúde da mulher, permaneceu, durante séculos, silenciada, estigmatizada e até mesmo marcada pelo “histerismo”», recorda a Dra. Glòria Borràs.
«Mas estamos a falar de uma fase em que as mulheres acumulam experiência, talento e sabedoria e em que podem continuar plenamente ativas na vida social, familiar e profissional. Por isso, é fundamental que a ciência e a sociedade se aproximem delas oferecendo apoio, informação e tratamentos adequados, em vez de assumirem o seu declínio e de as marginalizarem a partir dos 55 anos», afirma a Dra. Glòria Borràs.
Ao mesmo tempo, a especialista salienta a importância de cada mulher «poder evitar os autotratamentos, confiar nos profissionais, efetuar os controlos necessários e manifestar as suas necessidades, tanto em casa como no trabalho».
Só assim as próximas gerações de mulheres poderão reescrever o que significa viver a menopausa: com dignidade, transparência e o apoio de soluções científicas e rigorosas que lhes permitam finalmente desfrutar, de forma ativa e plena, deste capítulo da sua vida.
