Quarta-feira 12

“O momento de uma detonação cósmica”

Publicado em

Na arte, o que vemos a olho nu raramente conta toda a história. Ver para além do óbvio permite-nos descobrir pormenores ocultos e criar interpretações e perspetivas únicas que podem mudar a forma como compreendemos uma obra.

O mesmo se passa com a ciência. Na oncologia, até agora, o foco da luta contra o cancro tem sido o tumor: a sua forma, os pontos fracos das células tumorais, etc. Mas, hoje, sabemos que, além do tumor, conhecer o seu ambiente e como ele interage com outras células pode mudar a forma como o estudamos e orientar o desenvolvimento de novas terapias.

Neste novo Instantâneo do Mês, vamos descobrir, com a ajuda de Alice Perucca, membro do grupo do investigador Health Research Xavier Trepat, do Instituto de Bioingeniería de Cataluña (IBEC), e do artista plástico e bolseiro da Fundação ”la Caixa” Max Azemar i Carnicero, como a exploração de novas perspetivas pode transformar uma imagem científica em arte e, ao mesmo tempo, suscitar avanços na investigação do cancro.

Começamos por si, Max. O que lhe transmite esta imagem?

Max (M): As cores vivas da imagem fazem-me lembrar uma explosão de luz. Tanto o movimento das texturas como a sobreposição dos dois planos sobre o fundo escuro podem sugerir que a imagem é o momento de uma detonação cósmica, o conteúdo de uma massa colossal a transbordar ou uma força energética que só pode ser travada através da imagem fixa, como se fosse uma aurora boreal, uma rave ou um fragmento do “Flubber”, a substância criada por Philip Brainard (Robin Williams, no filme de 1997 com o mesmo nome).

Max Azemar i Carnicero, bolseiro da Fundação ”la Caixa” e MFA pela Parsons, The New School, New York.

Faz-lhe lembrar a obra de algum artista?

M: A transparência fantasmagórica, a textura da imagem e as cores vivas fazem-me lembrar a forma como o absinto era representado no final do século XIX, no movimento impressionista. Era um tema recorrente na época, porque a bebida pressupunha o delírio coletivo, o perigo do vício, a noite e a boémia: uma fada ou um demónio que levava à loucura. 

O bebedores de absinto. Jean Béraud, 1908-1909

O bebedor de absinto. Viktor Oliva, 1901

Se olharmos para a imagem no contexto da investigação do cancro, esta imagem obtida pela equipa de Xavier Trepat e Alice Perucca conta uma história completamente diferente. O que estamos a ver efetivamente, Alice?

Alice (A): Esta imagem representa a principal descoberta do nosso estudo. Descobrimos que, em muitos casos, os tumores protegem-se do sistema imunitário “aliando-se” às células à sua volta, como os fibroblastos associados ao cancro. Na imagem, os fibroblastos (a verde) formam uma barreira que impede as células imunitárias (a azul ciano) de atingirem e matarem as células do cancro da mama (a vermelho).

Qual é o principal desafio que estão a tentar resolver com a vossa investigação?

A: O nosso trabalho aborda um desafio fundamental da imunoterapia: muitos doentes não respondem ou deixam de responder aos tratamentos, e ainda não compreendemos totalmente porquê. Sabemos que o ambiente à volta do tumor, o microambiente tumoral, pode bloquear a ação das células imunitárias, mas, sem modelos que o reproduzam fielmente, é difícil estudar como isso acontece.

Para abordar este desafio, desenvolvemos o MIRO, um chip que contém as células e reproduz, de forma realista, um tumor e o seu ambiente. Com ele, conseguimos ver como estas barreiras de fibroblastos dificultam a ação do sistema imunitário e limitam a eficácia de alguns tratamentos, o que nos permitirá explorar novas estratégias terapêuticas contra o cancro.

Alice Perucca, investigadora do Instituto de Bioingeniería de Cataluña (IBEC).

Na vossa opinião, qual será o impacto do vosso projeto na sociedade?

A: Este trabalho pode ter um grande impacto, ao ajudar a compreender por que razão algumas pessoas não respondem às imunoterapias, além de fornecer uma ferramenta para esse estudo. A longo prazo, poderá ajudar a desenvolver terapias mais eficazes e personalizadas, melhorar os resultados para os doentes e reduzir os tratamentos desnecessários.

Xavier Trepat, investigador Health Research do Instituto de Bioingeniería de Cataluña (IBEC).

Por último, gostaríamos que ambos respondessem a uma última pergunta. Na vossa opinião, qual é a relação entre a ciência e a arte?

M: Embora a arte e a ciência ainda sejam entendidas como duas áreas opostas do conhecimento, uma vez que se pressupõe que uma se baseia na experiência subjetiva e a outra no estudo objetivo, promover esta dicotomia é prejudicial para ambas. A ciência precisa de metodologias próximas das da arte contemporânea para fomentar a curiosidade criativa e o pensamento fora das convenções. Por outro lado, a arte contemporânea apoia-se em atitudes científicas para se legitimar e transmitir conhecimento.

A: Na minha opinião, a ciência e a arte estão muito ligadas. Ambas procuram explorar, compreender e representar o mundo, embora o façam com ferramentas distintas. A ciência utiliza experiências e dados, enquanto a arte utiliza a criatividade e as emoções. Os cientistas e os artistas observam pormenores, estabelecem ligações e procuram novas formas de expressar ideias. A criatividade que pode dar origem a uma obra de arte também pode dar origem a descobertas científicas, e os avanços científicos podem dar origem a novas formas de arte.

Partilhar

0

Categoría:

Sem categoria

  • Arquivo