Instantâneo do mês: “Topografia da matéria viva”
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Se o conseguíssemos percecionar, como seria o som do envelhecimento? Que notas musicais representariam a mudança de forma, estrutura e cor que ocorre ao longo dos anos? E, no sentido inverso, que sons emitiria o nosso corpo se fosse capaz de reverter este processo?
Talvez o som exista e nós simplesmente não o saibamos ouvir. Algo semelhante acontece neste novo Instantâneo do mês. Como se de uma experiência de sinestesia sensorial se tratasse, a imagem científica que observamos desperta sensações aparentemente desconexas ou até contraditórias: uma quietude em movimento ou um silêncio ensurdecedor. E a descoberta que se esconde por detrás disso não é menos desconcertante: revela um mecanismo fundamental envolvido no envelhecimento – e na regeneração – das células estaminais hematopoiéticas.
Para analisar esta imagem a partir de duas perspetivas complementares, a artística e a científica, contámos com Sira Pellicer, bolseira da Fundação ”la Caixa”, saxofonista e gestora cultural, Pablo Iáñez, bolseiro e investigador do estudo, e Carolina Florian, investigadora Health Research e ICREA (Institució Catalana de Recerca i Estudis Avançats), e líder do trabalho publicado na Nature Aging (Institut d’Investigació Biomèdica de Bellvitge).
Começámos com Sira.
Sira, que título daria a esta imagem?
Sira (S): Vejo uma matéria silenciosa, carregada de informação. Algo que parece calmo, mas que, na verdade, está cheio de tensão interna. A imagem transmite fragilidade e, ao mesmo tempo, uma grande capacidade de transformação. Parece uma forma mutável e permeável, composta de diferentes camadas.

Sira Pellicer
Isso leva-me a questionar se qualidades como a fragilidade, a mudança e a estrutura são realmente opostas ou se, pelo contrário, coexistem. Esta coexistência é o que pretendia condensar no título: Topografia da matéria viva.
Fá-la lembrar-se de algum som ou peça musical?
S: Sim, de uma linguagem musical claramente contemporânea. Estou a pensar, especificamente, em mute materie (2010), uma peça para saxofone alto solo e eletrónica do compositor suíço Nadir Vassena. O título sugere uma tensão entre o som e o silêncio: a matéria silenciosa torna-se audível, surgem ecos, camadas, gestos.
Esta peça sempre me fez lembrar essa matéria aparentemente silenciosa, estruturada e complexa, mas, ao mesmo tempo, ruidosa para os ouvidos do espetador. Algo muito semelhante ao que acontece com esta imagem.
Carolina, o que é que estamos realmente a ver nesta imagem?
Carolina (C): Trata-se de uma célula estaminal hematopoiética envelhecida, um tipo de célula localizada na medula óssea cuja função é produzir as células sanguíneas ao longo da vida.

Carolina Florian
A vermelho, vemos a proteína RhoA ativa e, a cinzento, o núcleo da célula. Nas células estaminais envelhecidas, a RhoA é sobreativada e provoca alterações mecânicas no núcleo, modificando a sua forma e o seu funcionamento.
Pablo, Carolina, porque é que esta alteração mecânica é tão importante?
C: Porque o núcleo não é apenas um recipiente para o ADN. É um nó central de sinais mecânicos que regulam o funcionamento da célula. Quando isso se altera, a célula perde a sua capacidade de funcionar corretamente. No nosso estudo, demonstrámos que, ao reduzir a atividade da RhoA com um inibidor chamado Rhosin, podemos reverter essas alterações mecânicas e rejuvenescer a função das células estaminais hematopoiéticas.
Pablo (P): Esta descoberta é particularmente relevante, não só porque fornece mais evidências sobre o papel do núcleo celular como centro de sinalização das forças mecânicas que regulam o envelhecimento das células estaminais, mas também porque identifica uma forma concreta de modular esse processo, melhorando a função das células envelhecidas.

Pablo Iáñez
Quais são as implicações dessa descoberta?
C: As células estaminais hematopoiéticas são responsáveis pela produção de todas as células sanguíneas. O seu envelhecimento está associado a doenças cardiovasculares, infeções, leucemias e a uma menor capacidade de resposta do sistema imunitário.
Ao rejuvenescer estas células, consegue-se que todo o sistema hematopoiético volte a funcionar como num organismo jovem, o que permite melhorar a saúde das pessoas mais velhas e potencialmente aumentar a esperança de vida, tal como demonstraram estudos anteriores do laboratório.
Não podemos terminar esta entrevista sem a resposta a uma questão fundamental. Sira, acha que a ciência e a arte estão mais próximas do que pensamos?
S: Sim. Embora sejam frequentemente apresentadas como opostas, ambas partem da curiosidade e da exploração do desconhecido. Tanto o cientista como o artista observam, fazem perguntas e experimentam. As linguagens e os objetivos mudam, mas ambas partilham a mesma base: a necessidade de compreender, representar e dar sentido ao mundo que nos rodeia.
Um novo mapa da matéria viva
Este estudo não só amplia o nosso conhecimento sobre o envelhecimento das células estaminais, mas também demonstra que o seu funcionamento depende de uma arquitetura interna em constante ajuste. Uma topografia microscópica feita de camadas, tensões e equilíbrios.
Neste sentido, Topografia da matéria viva funciona como uma metáfora precisa: uma maneira de descrever como a forma, a estrutura e a mecânica celular condicionam a vida e a sua capacidade de regeneração.
