“Universos do máximo e do mínimo”
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Por vezes, basta mudar o ângulo do nosso olhar para descobrirmos que o que antes pareciam manchas de cor, formas caprichosas e linhas que não levam a lugar algum são, na verdade, uma mensagem.
É isso que acontece com este novo Instantâneo CaixaResearch. Poderia tratar-se de uma obra contemporânea — uma textura artificial, abstrata e quase aleatória —, mas o que vemos aqui vai além da arte. É uma imagem científica que encerra uma importante descoberta: a confirmação de que o nosso cérebro e o nosso intestino comunicam entre si, de forma direta e bidirecional.
Para analisar esta imagem sob duas perspetivas — distintas e complementares — contamos com Marc Claret, investigador principal do estudo publicado na Nature Metabolism (Institut d’Investigacions Biomèdiques August Pi i Sunyer, Barcelona) e membro da rede CaixaResearch, e com Gema Álava, bolseira da Fundação ”la Caixa” especializada em artes visuais.
Juntos, vamos analisar os detalhes que transformam os traços, pontos e claros-escuros desta imagem numa obra de arte e, ao mesmo tempo, num grande avanço científico. Começamos com Gema.
Que título daria a esta imagem? E porquê?
G: A forma como interpretamos uma imagem depende do lugar de onde a observamos. Esta, por exemplo, mostra algo que a minha retina nunca veria sem a ajuda de um microscópio.
Se a visse da janela de um avião? Os pontos brancos iriam lembrar-me cidades iluminadas à noite: aglomerações de edifícios e estradas contra um fundo escuro, que poderia ser o deserto ou o oceano. Em contrapartida, se a observasse através de um telescópio, iria trazer-me à mente um céu estrelado, infinito, abstrato.
Esta dupla interpretação não é por acaso: existe uma simetria visual entre o microscópico e o astronómico. Como se as estruturas que formam o mais pequeno e o maior respondessem a uma mesma linguagem geométrica. Por essa dualidade, pela sua capacidade de evocar tanto o ínfimo como o imenso, intitularia esta imagem de: “Universos do máximo e do mínimo”.
Se fosse uma obra de um artista, de quem poderia ser?
G: Faz-me lembrar as pinturas abstratas do artista norte-americano Jackson Pollock. As suas obras estão repletas de pontos e linhas de tinta suspensos, quase flutuantes, que nascem do dripping, a sua técnica característica: deixar cair a tinta diretamente do pincel ou do frasco, sem tocar na tela. O resultado são formas cheias de dinamismo, como se fossem luzes em movimento.
Além disso, as figuras que produz têm uma particularidade: funcionam como fractais, o que significa que, à medida que nos aproximamos, a imagem não muda muito a sua estrutura. É essa coerência interna, essa complexidade contida em cada nível de escala, que me liga à imagem científica que observamos.

© Pollock-Krasner Foundation / Artists Rights Society (ARS), Nova York
Mas, na verdade, o que estamos a ver, Marc?
M: Iluminados em branco, vemos um tipo de neurónios, chamados POMC (pró-opiomelanocortina), que se destacam entre várias estruturas celulares de diferentes cores. Estas células encontram-se numa zona do cérebro conhecida como hipotálamo e desempenham um papel fundamental na regulação do apetite e do metabolismo do organismo.
Que descoberta se esconde por detrás desta imagem?
M: Descobrimos que certos neurónios do hipotálamo, como os POMC, podem alterar a composição das bactérias intestinais que formam a microbiota muito rapidamente (em apenas 2 a 4 horas).
Até agora, já sabíamos que a microbiota influenciava o cérebro, o que é conhecido como “eixo intestino-cérebro”. Mas este estudo demonstra que também existe uma via inversa “cérebro-intestino”, através da qual o cérebro pode alterar as comunidades bacterianas intestinais quase em tempo real.
Embora ainda não compreendamos totalmente o propósito fisiológico deste mecanismo, é possível que ele permita ao organismo ajustar a gestão de nutrientes e energia após cada refeição.

Grupo de investigação de Marc Claret, IDIBAPS.
Parece ser uma descoberta com grande potencial. Que impacto poderá ter na área da saúde?
M: Além de aumentar o nosso conhecimento relativamente ao eixo cérebro-intestino, a ideia de que o cérebro pode influenciar a microbiota em tempo real abre um campo terapêutico completamente novo. Se conseguirmos modular esta via de forma específica e controlada, poderemos desenvolver tratamentos inovadores para doenças como a obesidade, a diabetes tipo 2 e certos distúrbios digestivos.
Não podemos terminar esta entrevista sem responder a uma pergunta-chave. Gema, qual acha que é a ligação entre a arte e a ciência?
G: Fomos nós que criámos as palavras “arte” e “ciência” para diferenciá-las, mas ambos os mundos nascem da mesma coisa: experimentação, criatividade, observação, imaginação, curiosidade. Há uma citação de um pintor divisionista que resume muito bem isso: «Não me sinto um artista, sinto-me um cientista que experimenta com pontos de cor».
O artista Georges Seurat, por exemplo, disse: «Há quem veja poesia nas minhas obras. Eu só vejo ciência». De certa forma, os pontilhistas inventaram os pixels. Essa ligação entre método e expressão, entre estrutura e emoção, está no centro tanto da arte como da investigação científica.
E quando a ciência se aproxima da arte – e a arte se aproxima da ciência –, surge algo mais do que uma imagem bonita ou um resultado experimental. Surge uma nova forma de ver o mundo. Este Instantâneo não só nos convida a conhecer uma descoberta inovadora sobre o eixo cérebro-intestino, como também nos lembra que, do máximo ao mínimo, da arte à ciência, tudo está ligado.
