Quarta-feira 15

Health Research Meeting 2025: o ecossistema do conhecimento na Saúde

Publicado em

As ideias são raízes que se alimentam mutuamente.

Cada descoberta é um novo rebento.

Cada colaboração, uma oportunidade que floresce.

A diversidade, a ligação e a comunidade, fundamentais para crescer.

 

Foi este o espírito que dominou a quarta edição do Health Research Meeting. Nos dias 2 e 3 de outubro, a ciência e a natureza uniram-se para acolher os quase 50 investigadores do concurso de Investigação em Saúde 2021 nos Jardins de Cap Roig. Duas jornadas repletas de networking, apresentações e debates abertos. 

Este evento contou também com a moderação da escritora e divulgadora científica Vivienne Parry e com a participação de representantes da Fundação Luzón e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), parceiros estratégicos dos concursos Health Research. Tudo isto com o mesmo objetivo: explorar os grandes desafios presentes e futuros da investigação biomédica e da inovação na saúde.


Um espaço para crescer

«Cap Roig é um lugar único», explicou durante a abertura do evento Ángel Font, Diretor-Geral Adjunto de Investigação e Bolsas da Fundação ”la Caixa”. E não é para menos: este jardim de 20 hectares, entre Palafrugell e Mont-ras, contém mais de 800 espécies botânicas de todo o mundo que fazem dele um extraordinário ecossistema no Mediterrâneo. 

«É precisamente este o motivo pelo qual nos reunimos aqui», continuou Ángel Font. «A exuberância e a singularidade deste espaço refletem o nosso compromisso com o crescimento e convidam-nos, mais uma vez, a partilhar, refletir e criar conhecimento em conjunto

Foi nos Jardins de Cap Roig que teve início a primeira jornada. Os investigadores partilharam, neste espaço, as suas primeiras impressões, expetativas e projetos, e em muitos casos, conheceram-se pessoalmente pela primeira vez. Sabemos que alguns viveram esta experiência da seguinte forma:

 

«As melhores conversas científicas surgem em ambientes descontraídos como este, onde podem surgir ideias inesperadas.» 

Alejo Efeyan, Centro Nacional de Investigaciones Oncológicas Carlos III (CNIO, Madrid)

«Partilhar ciência num espaço tão inspirador é um privilégio que nos permitirá crescer.» 

Esther Julián, Universitat Autònoma de Barcelona (UAB)

«O mais valioso é conhecer em primeira mão os projetos de outros investigadores. São todos incríveis.» 

Jordi Llop, Centro de Investigación Cooperativa en Biomateriales (CIC biomaGUNE, Donostia)

«O ponto forte deste encontro reside na diversidade dos seus participantes, que abre novas perspetivas e oportunidades de colaboração.» 

Anne Rosser, Cardiff University

Decifrar doenças, conceber terapias 

As terapias personalizadas e os diagnósticos precoces são o grande desafio da biomedicina. Em duas sessões consecutivas, oito investigadores explicaram como os seus projetos abordam estes desafios a partir de duas perspetivas diferentes. 

A primeira parte das sessões científicas centrou-se na utilização de “códigos” escondidos nas nossas células (desde marcas no ADN até padrões de funcionamento celular) como “impressões digitais” capazes de revelar doenças e funcionar como ferramentas de diagnóstico e prevenção precoce.

Liset Menéndez de la Prida, do Consejo Superior de Investigaciones Científicas, CSIC, Madrid, abriu a sessão com um exemplo aplicado à neurobiologia. A investigadora explicou que os neurónios do hipocampo, a região do cérebro responsável pela formação de memórias, se ativam seguindo sequências muito precisas, como se formassem um verdadeiro “código da memória”. O seu objetivo, acrescentou, é «identificar possíveis alterações nesses padrões que possam converter-se em marcadores para o diagnóstico precoce de doenças neurológicas».

José Bessa, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, i3S, falou sobre as doenças metabólicas para assinalar o potencial das “marcas” no ADN não codificante das células pancreáticas como possíveis indicadores precoces da diabetes tipo 2. A sua equipa trabalha na identificação destas “marcas”, com o objetivo de desenvolver tratamentos mais personalizados e eficazes.

Margarida Saraiva, do i3S, focou a sua intervenção no papel da genética, tanto do doente como do agente patogénico, na variabilidade das respostas imunitárias à infeção por tuberculose. «Decifrar estas “assinaturas genéticas” poderá abrir a porta a novas estratégias para combater a doença», afirmou Margarida Saraiva. 

Por último, Helder Maiato, também do i3S, apresentou o seu projeto de investigação sobre o “código da tubulina”, um marcador que se encontra no citoesqueleto da célula e que poderá ajudar a prever a resposta a medicamentos e, assim, minimizar os efeitos secundários nos doentes com cancro da mama.

A sessão permitiu chegar uma conclusão clara: decifrar as assinaturas genéticas e moleculares de cada doença é um passo decisivo no sentido da medicina de precisão. Uma das oradoras, Margarida Saraiva, resumiu isto da seguinte forma (mais informações neste thread do X e do Bluesky):

Na segunda parte da sessão, foram abordadas as terapias direcionadas que procuram levar os tratamentos ao local e no momento em que são necessários. Ficou demonstrado que, atualmente, estas estratégias já não são apenas teoria: existem e apresentam benefícios significativos.

Amadeu Llebaria, do Institut de Química Avançada de Catalunya, IQAC-CSIC, Barcelona, apresentou o caso dos medicamentos ativados por luz. «Esta tecnologia reduz as lesões cardíacas após um enfarte, pois permite ativar o tratamento no tecido e o tempo de ação adequados a cada doente», explica.

Por sua vez, Samuel Sánchez, do Institut de Bioenginyeria de Catalunya, IBEC, mostrou outro modelo igualmente revolucionário: nanorrobôs autopropulsados capazes de navegar pela bexiga e administrar medicamentos diretamente nos tumores. O seu êxito já é retumbante: reduzem a dose e a toxicidade, melhorando a regressão tumoral em modelos pré-clínicos.

Por sua vez, Miguel Castanho, do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular (GIMM), abordou um dos grandes desafios atuais: as metástases cerebrais no cancro da mama triplo negativo. «Estamos a explorar a utilização da imunoterapia dirigida a recetores específicos na barreira hematoencefálica, o que permitirá melhorar o efeito da terapia e a evolução desta doença de difícil tratamento», realça. 

Por último, Ana Martínez, do CSIC, apresentou modelos terapêuticos personalizados para a esclerose lateral amiotrófica (ELA). Trata-se de uma abordagem molecular e centrada no doente que permite testar medicamentos de forma mais segura e eficaz.

Todos concordam no mesmo ponto: as terapias direcionadas estão a abrir a porta a uma nova geração de medicamentos: mais seguros, mais eficazes e mais bem adaptados ao doente. Partilhamos aqui, mais detalhadamente, as conclusões tiradas por Amadeu Llebaria, participante da sessão (X e Bluesky).


A saúde com base na imunologia: a visão do CaixaResearch Institute

Outra das sessões centrou-se no CaixaResearch Institute: o novo hub europeu em construção, dedicado ao estudo do papel do sistema imunitário na doença. Josep Tabernero, presidente da Comissão Científica do centro, resumiu-o da seguinte forma: «A imunologia é o fio condutor que vai desde o cancro à neurodegeneração, passando pelas doenças infeciosas e metabólicas».

O Instituto promete atrair talento internacional, integrar tecnologias de ponta e plataformas computacionais. A sua missão é conseguir acelerar descobertas que possam ser aplicadas diretamente no diagnóstico, tratamento e gestão na saúde pública de várias doenças.

Qual será o seu verdadeiro impacto no ecossistema da investigação? Recolhemos as respostas dos nossos investigadores no vídeo que se segue (ver também este thread do X e Bluesky).


Métricas e méritos: a mudança na avaliação da investigação 

Num contexto em que os critérios tradicionais de avaliação científica nem sempre refletem o verdadeiro impacto da investigação, como se reconhece o mérito científico?

Na sessão 3a, Ismael Ràfols, UNESCO Chair on Diversity and Inclusion in Global Science, Leiden University, sublinhou que as métricas atuais podem gerar desigualdades, menosprezando o trabalho interdisciplinar, a inovação e as descobertas inesperadas. Por isso, «é fundamental avaliar a investigação de forma multidimensional, captando interações e ligações para além da simples contagem de publicações».

A Inteligência Artificial (IA) poderá ajudar neste processo? O debate deixou claro que, embora a IA possa aliviar cargas administrativas e ultrapassar barreiras linguísticas, o discernimento humano continua a ser essencial para avaliar a criatividade e a novidade científica.

Como exemplo destas novas práticas, Ismael Ràfols destacou a adesão da Fundação ”la Caixa” e do CaixaResearch Institute à Coligação para o Avanço da Avaliação da Investigação (CoARA), que reúne mais de 700 organizações empenhadas em modelos de avaliação mais justos e responsáveis. Esta iniciativa reflete um compromisso partilhado: avançar no sentido de sistemas de avaliação que reconheçam a qualidade, o impacto e a relevância social da investigação, para além dos números e das métricas tradicionais.

Quer saber mais? Reveja as conclusões neste vídeo com Ismael Ràfols e nas seguintes publicações do X e Bluesky.


Da descoberta à entrega: tornar acessíveis as terapias avançadas 

Converter os avanços científicos em tratamentos reais exige a superação de desafios regulamentares, estruturais e financeiros.

Na sessão 3b, Silvia Martín Lluesma, Diretora de Terapias Avançadas no Vall d’Hebron Instituto de Oncología (VHIO), explicou como fazê-lo. Desde a investigação de base, ensaios clínicos e autorização de comercialização até à entrega aos serviços de saúde

«Cada passo exige planeamento, colaboração e financiamento sustentado, bem como o apoio de instituições como a Agência Europeia de Medicamentos», explica Sílvia. «As terapias avançadas podem transformar vidas, mas apenas se ultrapassarmos as barreiras necessárias para torná-las acessíveis aos doentes.»

Pode ver esta e outras ideias-chave da sua sessão neste thread do X e Bluesky, e neste vídeo:


Mudanças globais e tempos incertos: competir por talento e confiança 

As mudanças geopolíticas, económicas e tecnológicas também estão a moldar o avanço científico a nível internacional. Na última sessão, Javier Solana, Presidente da Comissão Científica da Fundação ”la Caixa”, e Jorge Juan Fernández, Diretor de Inovação do Hospital Clínic de Barcelona, analisaram os desafios e as oportunidades que surgem no horizonte.

Um dos pontos-chave é o financiamento: «Flutua rapidamente», explica Jorge Juan Fernández. «Os apoios públicos estão a diminuir em algumas regiões e há uma maior dependência da indústria.» A isto acresce a concorrência global por talento, intensificada pela evolução das políticas migratórias, e os desafios decorrentes da adoção da inteligência artificial na saúde, que vão para além da tecnologia, afetando a infraestrutura, a integração e o enorme consumo energético.

Apesar da complexidade e instabilidade do momento, ambos concordam que estes desafios também criam oportunidades. Como sublinhou Jorge Juan Fernández, «os avanços científicos não asseguram por si só o sucesso comercial nem a confiança pública.» De facto, Jorge Juan recordou que «a chave reside em aprender a navegar a incerteza, aplicar a IA de forma responsável, adaptarmo-nos às mudanças globais e proteger a credibilidade científica». 

Descubra as ideias de maior destaque neste vídeo de resumo com Jorge Juan Fernández (mais informações neste thread do X e Bluesky). 


Uma semente de mudança

Esta edição do Health Research Meeting encerrou com uma reflexão partilhada: a ciência não avança apenas nos laboratórios, mas também no diálogo, na cooperação e no compromisso com as pessoas.

«Temos um compromisso com o futuro que queremos construir, no qual a ciência e a humanidade se encontrem», sublinhou Josep Maria Coronas, Diretor-Geral da Fundação ”la Caixa”. E, subsequentemente, Javier Solana, Presidente da Comissão Científica da Fundação, afirmou de forma contundente: «Perante a situação global atual, não é o momento para a ciência parar e pensar, mas sim para parar e agir».

E foi assim que, mais uma vez, o Health Research Meeting deu origem a duas jornadas intensas no ambiente fértil de Cap Roig, um lugar que viu como as ideias brotavam, as ligações se ramificavam e novas sementes de conhecimento e colaboração começavam a sua viagem até construírem pontes entre a investigação na saúde e a sociedade.

Partilhar

0

Categoría:

Sem categoria

  • Arquivo