Quarta-feira 28

Enfrentar a balança através da ciência

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Perguntámos ao especialista, com Guadalupe Sabio e Beatriz Cicuéndez

Começa um novo ano e, com ele, novas – ou renovadas – resoluções. Descobrir um novo hobby? Inscrever-se num ginásio? Começar uma dieta e perder peso? É comum que a balança ocupe um lugar central em muitas destas listas, tal como acontece nas manchetes da atualidade. 

Ozempic, Mounjaro ou Wegovy… O aparecimento de novos medicamentos que prometem uma perda de peso rápida e quase milagrosa voltou a colocar o peso no centro do debate social, da imprensa às redes sociais e às conversas do dia-a-dia. Mas e se olharmos para além do número no ecrã e levarmos a questão para o laboratório?

Neste Perguntámos ao especialista propomos mudar o foco da urgência de perder peso para a necessidade de compreender por que razão temos excesso de peso e as suas consequências enquanto problema de saúde complexo. Para tal, falámos com  Guadalupe Sabio, investigadora e especialista em metabolismo, e Beatriz Cicuéndez, doutoranda e bolseira da Fundação ”la Caixa”. O que diz a ciência sobre como enfrentar a balança? E porque é que não existem soluções milagrosas?

Vamos a isso:

«É importante recordar que a obesidade é, na verdade, uma doença do tecido adiposo», explica Guadalupe. «E, como tal, o que é relevante não é apenas a quantidade de tecido adiposo que temos, mas também o seu estado e o seu funcionamento: é saudável ou disfuncional? Centrarmo-nos apenas no número mostrado na balança é permanecermos na parte mais superficial do problema». 

«Além disso, o peso é um dado incompleto», acrescenta Beatriz. «Precisamos de análises mais complexas para saber que parte do peso é músculo, osso ou gordura, e que tipo de gordura». 

 

  • Quando falamos de peso corporal, que fatores são frequentemente menosprezados?

«Muitas vezes, o foco está nos hábitos individuais e os aspetos biológicos fundamentais são esquecidos», salienta Sabio. «Por exemplo, o facto de o tecido adiposo ser um órgão e, como qualquer órgão, poder adoecer e necessitar de cuidados. A saúde deste órgão é fundamental porque regula o metabolismo de outros órgãos e, quando alterado, pode contribuir para doenças como a diabetes ou o fígado gordo, ou mesmo aumentar o risco de certos tipos de cancro. No entanto, estes mecanismos raramente são mencionados no debate público». 

Guadalupe Sabio

«Para além destes fatores, existem elementos biológicos específicos de cada pessoa», explica Cicuéndez. «A predisposição genética, modulada por fatores ambientais – a que chamamos epigenética –, tem um peso enorme. Além disso, cada pessoa tem um metabolismo basal diferente, que também é influenciado por alterações hormonais, alguns medicamentos, a qualidade do sono, o stress ou mesmo a microbiota intestinal, que determina a forma como absorvemos e utilizamos a energia». 

 

«Estes medicamentos são baseados em moléculas que descobrimos ao estudar a forma como os órgãos comunicam entre si», explica Sabio. «O intestino, por exemplo, envia sinais ao cérebro para indicar saciedade. Um deles é o GLP-1, uma proteína que diz ao cérebro para parar de comer». 

Para além de reduzir o apetite, o GLP-1 regula o metabolismo e a ação da insulina em órgãos como o fígado. «Uma vez compreendida esta função, a estratégia consistiu em modificar esta proteína para que durasse mais tempo no sangue e, assim, aumentar os seus efeitos benéficos», acrescenta. 

 

  • Beatriz, por que razão estes medicamentos geraram tanta expetativa médica e social?

«Encontrar medicamentos eficazes com efeitos secundários controláveis para uma doença crónica como a obesidade, que afeta órgãos-chave como o coração e o fígado, tem sido um grande desafio», explica Cicuéndez. «O que estes medicamentos têm de inovador é o facto de tirarem partido de uma molécula que já existe no nosso corpo e que atua naturalmente, o que melhora o seu perfil de segurança e reduz a probabilidade de efeitos adversos graves».

Beatriz Cicuéndez

«Os efeitos secundários mais frequentes são os gastrointestinais, como náuseas ou desconforto digestivo, principalmente no início do tratamento», explica Beatriz. «Embora sejam geralmente considerados medicamentos seguros, subsistem ainda muitas incógnitas, particularmente no que respeita à sua utilização a muito longo prazo. A obesidade é uma doença crónica, o que implica tratamentos prolongados, pelo que necessitamos de mais dados para compreender plenamente os seus efeitos ao longo do tempo». 

«Outro aspeto relevante é que, para além da perda de gordura, estes medicamentos podem causar perda de massa muscular. Por conseguinte, é essencial combiná-los com exercício físico para minimizar este efeito. Não devemos esquecer que se trata de um medicamento:  a sua utilização não pode ser leviana ou para fins estéticos, mas sempre supervisionada, equilibrando os benefícios com os possíveis efeitos secundários». 

 

  • Para além destes tipos de tratamentos, existem outras estratégias alternativas de tratamento da obesidade?

«Ao contrário da gordura branca, que todos conhecemos e cuja principal função é armazenar energia, a gordura castanha tem uma função diferente: gera calor através de um processo chamado termogénese», explica Beatriz. «Em vez de acumular calorias, “queima-as” para manter a temperatura corporal. A nossa investigação centra-se na forma como podemos ativar essa gordura castanha para combater a obesidade». 

«Até à data, identificámos uma proteína, chamada MCJ, que atua como um “travão” nas mitocôndrias – no motor energético das células – da gordura castanha. Ao reduzir ou eliminar esta proteína em modelos animais, observámos que a gordura castanha é significativamente ativada. Isto não só ajuda a queimar mais energia e protege contra o aumento de peso, mesmo com dietas ricas em gordura, como também evita a acumulação excessiva de gordura sem afetar a massa muscular», explica. 

Esquerda: microscopia eletrónica do tecido adiposo castanho do rato sem a proteína MCJ, mostrando alterações nas suas mitocôndrias. Direita: diferença de temperatura no tecido adiposo castanho num rato sem MCJ no tecido adiposo castanho (sh MCJ) e num rato normal (sh empty).

Os benefícios não ficam por aqui: «Vimos que a ativação da gordura castanha reduz os níveis de glicose no sangue, melhora a sensibilidade à insulina e promove um perfil de colesterol mais saudável», afirma Cicuéndez. «Tudo isto converte-a numa estratégia promissora para o tratamento da obesidade e das doenças associadas, como a diabetes tipo 2», acrescenta. 

No entanto, sublinha a investigadora, qualquer intervenção deve ter em conta o papel complexo do tecido adiposo no organismo. «A gordura branca não é apenas uma reserva de energia: funciona como um órgão endócrino, libertando hormonas e sinais que regulam o metabolismo. O mesmo acontece com a gordura castanha, que, para além de gerar calor, parece desempenhar funções endócrinas fundamentais, influenciando o metabolismo de órgãos distantes». 

 

  • Olhando para o futuro, como acha que irá mudar a forma de investigar, compreender e tratar a obesidade nos próximos anos?

«É importante recordar que muitos dos medicamentos que utilizamos atualmente provêm de descobertas feitas há mais de vinte anos na investigação fundamental», salienta Guadalupe Sabio. «Sem este conhecimento prévio, não teriam sido possíveis novos tratamentos para a obesidade. A investigação fundamental permite-nos compreender os mecanismos que estão na origem da doença e abrir a porta a terapias mais eficazes, mais seguras e mais bem adaptadas a cada pessoa. Sem ela, apenas tratamos as consequências. É o pilar da medicina. Tal como não se pode construir uma casa sem bons alicerces, não podemos negligenciar a base sobre a qual se constrói o progresso científico». 

«A investigação está a evoluir para uma medicina mais personalizada e isso é fundamental. Pessoas com o mesmo peso podem ter estados metabólicos muito diferentes», explica Cicuéndez. «O grande desafio atual é identificar marcadores que nos permitam saber quando o tecido adiposo está saudável e quando está doente». 

Só deste modo, conclui, «deixaremos de tratar todos os doentes da mesma forma e poderemos enfrentar a balança através da ciência: não como uma obsessão por perder quilos, mas como uma ferramenta para cuidar melhor da saúde a longo prazo». 

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