Terça-feira 18

A corrida contra a resistência aos antibióticos. Como a podemos vencer? Perguntámos ao especialista

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Há anos que lemos sobre o poder que certas bactérias têm de resistir aos antibióticos tradicionais. “Bactérias pesadelo”, superbactérias, bactérias multirresistentes são conceitos cada vez mais familiares e que refletem a mesma realidade: a impossibilidade de combater as infeções bacterianas com moléculas antimicrobianas.

São mutações aleatórias que tornam as bactérias resistentes. Ao interrompermos o tratamento, damos-lhes mais oportunidades de sofrerem mutações; e ao utilizarmos antibióticos desnecessariamente, encorajamos as estirpes resistentes a sobreviverem e a multiplicarem-se, formando um círculo vicioso que ameaça a eficácia dos nossos medicamentos.

Falámos hoje com o investigador Marc Torrent, professor associado do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Autónoma de Barcelona, sobre este desafio de saúde global que a Organização Mundial da Saúde apelidou de “pandemia silenciosa”.

Por que razão lhe foi dado este nome, Marc?

É designada por “pandemia silenciosa” porque, ao contrário da Covid-19, propaga-se sem a visibilidade de uma crise aguda. No entanto, as mortes associadas a bactérias resistentes a antibióticos continuam a aumentar todos os anos. Estima-se que cerca de cinco milhões de pessoas tenham morrido por esse motivo em 2019.

Que fatores estão associados a esta pandemia?

São muitos, mas entre os mais importantes contam-se a prescrição excessiva de antibióticos, a sua utilização maciça na pecuária, a libertação para o ambiente de resíduos industriais provenientes da produção de antibióticos e a mobilidade global das pessoas, que facilita a propagação de estirpes resistentes.

Fala-se geralmente da “resistência bacteriana aos antibióticos”, mas as bactérias desenvolvem todas resistência ao mesmo ritmo?

Não. A velocidade a que a resistência se desenvolve depende do tipo de antibiótico, do microrganismo envolvido e da pressão seletiva do ambiente, como a exposição desnecessária e constante a estes medicamentos. Algumas bactérias podem desenvolver resistência em apenas alguns anos, quando apenas as estirpes resistentes conseguem sobreviver e multiplicar-se. Além disso, uma vez adquirida, podem facilmente transferi-la para outras espécies de bactérias, graças à troca de fragmentos de ADN com mutações que as tornam resistentes.

Notícias recentes alertam para as “bactérias pesadelo” como as mais preocupantes. Marc, o que são e o que as torna tão perigosas?

As “bactérias pesadelo” (nightmare bacteria, em inglês) são resistentes a quase todos os antibióticos disponíveis, incluindo a terapêutica de último recurso reservada para as infeções mais graves. Estas estirpes encontram-se sobretudo em hospitais e unidades de cuidados intensivos, onde a utilização intensiva de antibióticos e de dispositivos invasivos, como sondas, cateteres e aparelhos de ventilação, facilita a sua propagação. 

Nos doentes imunodeprimidos, estas infeções são particularmente graves e a sua taxa de mortalidade pode ultrapassar os 50% devido à falta de tratamento eficaz. São um bom exemplo do perigo que representam as estirpes multirresistentes se não conseguirmos controlar o seu avanço.

Atualmente, quais são os desafios que a investigação enfrenta no combate à resistência bacteriana aos antibióticos?

Enfrentamos três grandes desafios. Por um lado, a propagação da resistência reduz a eficácia dos antibióticos disponíveis, enquanto a escassez de novos medicamentos com mecanismos diferentes complica ainda mais a situação. Esta combinação é particularmente perigosa: se a resistência avançar mais rapidamente do que o desenvolvimento de novos tratamentos, os sistemas de saúde podem ficar sobrecarregados.

Estes dois desafios são agravados pela falta de incentivos económicos e regulamentares para que a indústria invista em antibióticos. A sua utilização limitada torna-os muito menos rentáveis do que os medicamentos para doenças crónicas, como a diabetes e as doenças neurodegenerativas, levando as empresas a concentrar os seus recursos em áreas mais rentáveis. Por conseguinte, é necessário estabelecer quadros regulamentares e financeiros que tornem rentável a investigação neste domínio.

Os desafios no domínio dos antibióticos são evidentes, mas existem avanços recentes que indiquem que a investigação está no bom caminho?

Claro! Nem tudo são notícias preocupantes. Nos últimos anos, foram identificadas moléculas como a teixobactina e a lariocidina, que, apesar de ainda se encontrarem em fase inicial de desenvolvimento, poderão conduzir a novos antibióticos eficazes. Além disso, a aplicação da inteligência artificial à descoberta de medicamentos está a acelerar a identificação de novas moléculas. Também não podemos esquecer as iniciativas de políticas públicas que monitorizam o aparecimento de resistência e promovem uma utilização mais responsável dos antibióticos. Tudo isto demonstra a importância de investir na investigação e de estabelecer quadros regulamentares que facilitem o desenvolvimento de novos tratamentos.

Por falar em políticas públicas, a União Europeia (UE) lançou recentemente a iniciativa “One Health AntiMicrobial Resistance” para combater a resistência aos antibióticos. Marc, qual é a importância desta abordagem e qual poderá ser o seu impacto?

A abordagem “Uma Só Saúde” (One Health) é fundamental, porque conjuga a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental, que estão estreitamente interligadas. Muitos antibióticos utilizados na medicina têm equivalentes na veterinária, e os genes de resistência podem circular entre as bactérias dos animais e dos seres humanos através da água, do solo ou dos alimentos. Limitar o estudo apenas à saúde humana seria um erro grave. 

Esta iniciativa da UE procura conjugar políticas públicas e sistemas de vigilância aos três níveis, promovendo a utilização racional de antibióticos, incentivando práticas sustentáveis que reduzam o seu consumo e reforçando a monitorização da resistência. Se for implementada corretamente, poderá preservar a eficácia dos antibióticos a longo prazo.

O que está a investigar atualmente?

Com o apoio do CaixaImpulse Inovação em Saúde, estamos a desenvolver uma nova classe de antibióticos que tem duas grandes vantagens: por um lado, é eficaz contra as estirpes resistentes, uma vez que atua sobre um mecanismo bacteriano completamente novo. Por outro lado, atua sobre alvos presentes quase exclusivamente nas bactérias patogénicas, preservando as bactérias benéficas da microbiota do doente e reduzindo os efeitos secundários. No seu conjunto, esta abordagem poderá dar origem a um antibiótico de último recurso capaz de tratar infeções atualmente não tratáveis e salvar vidas. 

Para terminar, Marc, o que podemos fazer em casa para ajudar a prevenir a resistência aos antibióticos?

Embora a responsabilidade principal recaia sobre as instituições de saúde pública e a implementação de políticas adequadas, a nível individual, também podemos contribuir para a utilização responsável dos antibióticos. É fundamental que as pessoas os tomem apenas mediante receita médica e que nunca se automediquem. É importante lembrar que os antibióticos só atuam contra bactérias e não contra vírus, pelo que não são úteis em caso de constipações ou gripes. Além disso, é crucial completar sempre o tratamento prescrito, uma vez que a interrupção do tratamento pode deixar sobreviver bactérias parcialmente resistentes, que podem depois transmitir os seus genes de resistência a outras bactérias.

***

Como podemos ver, vencer a corrida contra a resistência bacteriana é possível, mas requer uma abordagem abrangente: investigação inovadora, políticas públicas eficazes e utilização responsável dos antibióticos. Só assim poderemos quebrar o ciclo de propagação e proteger a eficácia dos nossos tratamentos contra esta “pandemia silenciosa”.

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