Quinta-feira 21

Porque é que há cada vez mais alergias?

Publicado em

O tempo aqueceu, saímos à rua e o ar já cheira a primavera. À nossa volta, está tudo verde, vivo e florido. Inspiramos fundo, e lá vêm os espirros outra vez. Mais um ano e, com a chegada da nova estação, há uma palavra que se ouve por todo o lado: alergia

O que muitos, porém, consideram um incómodo sazonal é, na verdade, um fenómeno que afeta cada vez mais pessoas ao longo de todo o ano. As alergias aumentaram drasticamente nas últimas décadas e ainda estão longe de ter atingido o seu pico. Atualmente, estima-se que a rinite alérgica afete 32% da população europeia, e a Organização Mundial da Saúde prevê que, até 2050, possa afetar 50% da população mundial.

O que está por trás deste aumento? Que papel desempenham os nossos hábitos de vida e o ambiente? De que forma este fenómeno nos afeta em termos biológicos e sociais? E, acima de tudo, que respostas está a investigação médica a encontrar para compreender e travar este fenómeno?

Para aprofundar estas questões, conversámos com três especialistas nesta área: Laia Alsina, bolseira da Fundação ”la Caixa” e chefe do Serviço de Alergologia e Imunologia Clínica do Hospital Sant Joan de Déu de Barcelona; o colega Jaime Lozano, chefe da Unidade de Alergologia do mesmo centro; e José Chen, médico e investigador especializado em saúde pública no Institute for Global Health (ISGlobal) de Barcelona.

 

O sintoma de uma transição

«A alergia é, no fundo, a perda de tolerância», explica Laia Alsina. «O sistema imunitário interpreta como perigoso algo que deveria reconhecer como inócuo. Isto pode acontecer com diferentes substâncias, por múltiplas razões e em diferentes partes do corpo: desde alergias respiratórias e alimentares até dermatites e reações cutâneas.»

Laia Alsina

«O aumento do número de doentes a que estamos a assistir abrange todos os tipos de alergias e não se verifica apenas na primavera», salienta Laia. Entre eles, «os casos alimentares registam o aumento mais significativo: de 4% em 1992 para 11,4% em 2015», indica Jaime Lozano.

Este padrão é especialmente evidente em determinados grupos e contextos. «Observamos um aumento mais acentuado em crianças, em ambientes urbanos e em contextos de rápida mudança ambiental», salienta Laia. «E há cada vez mais casos em que as alergias se associam a inflamação, doenças autoimunes, infeções recorrentes e distúrbios digestivos.» Para Laia, não se trata de um fenómeno isolado: «Consideraria isto como parte de uma transição epidemiológica mais ampla. Não são apenas as alergias que estão a aumentar. Também estão a aumentar as doenças respiratórias e digestivas relacionadas com o ambiente e com as alterações no microbioma, nas barreiras epiteliais e na regulação imunitária.»

 

Será um problema de educação?

Durante anos, a explicação mais comum para este crescimento foi a chamada hipótese da higiene, segundo a qual o ambiente cada vez mais asséptico em que vivem as sociedades modernas privaria o sistema imunitário dos estímulos necessários para se desenvolver corretamente, tornando-o mais propenso a reagir de forma exagerada.

Esta ideia evoluiu. «As teorias atuais são mais sofisticadas do que a ideia de “excesso de higiene”», esclarece Laia. «É verdade que o sistema imunitário necessita, desde cedo, de exposição a diversos microrganismos benéficos para aprender a tolerá-los e que, nos ambientes urbanos, se reduziu o contacto com a biodiversidade, o solo, os animais, a vegetação e a microbiota ambiental, além de que utilizamos mais antibióticos e seguimos dietas mais processadas. Tudo isto pode empobrecer o microbioma e dificultar o desenvolvimento dos circuitos imunitários reguladores. É por isso que prefiro falar de perda de biodiversidade ou perda de educação imunitária

 

A ciência da exposição

A esta falta de treino do sistema imunitário junta-se um fator de dimensão global: as alterações climáticas. Com base nas conclusões do Relatório Lancet Countdown 2026, o seu coautor, José Chen, apresenta-nos uma lista clara de fatores agravantes: 

«Por um lado, as épocas de calor estão a chegar mais cedo e a prolongar-se por mais tempo. Este aumento das temperaturas permite que plantas típicas de zonas mais quentes se desloquem para latitudes mais altas, expondo as populações a alérgenos com os quais não tinham contactado anteriormente.»

«Além disso, verifica-se um aumento do CO₂ na atmosfera, o que estimula a fotossíntese: as plantas crescem mais. Paralelamente, as temperaturas elevadas favorecem ciclos reprodutivos mais intensos e prolongados em algumas espécies.» 

«O resultado», conclui José, «é uma pressão alergénica crescente: mais intensa, mais duradoura e que afeta um número cada vez maior de pessoas.»

José Chen

A poluição, uma das causas desta situação, agrava ainda mais as suas consequências no organismo. «As partículas poluentes aderem ao pólen e tornam-no mais agressivo para as vias respiratórias, prejudicando as nossas defesas e aumentando o risco de crises de asma», salienta José.

O impacto é direto. «Primeiro, são danificadas as barreiras respiratória, cutânea e intestinal, que constituem as primeiras linhas de defesa imunitária contra o ambiente», explica Laia. «Este dano favorece um estado inflamatório de baixa intensidade que pode facilitar reações alérgicas e a perda de tolerância.» 

É por isso que, atualmente, as alergias são estudadas a partir de duas perspetivas que vão além da medicina tradicional: o estudo do conjunto de todos os elementos a que estamos expostos ao longo da vida e do seu impacto na nossa biologia, conhecido como expossoma, e a imunologia ambiental.

 

A imunologia como mudança de paradigma

Durante décadas, tratar uma alergia significava basicamente evitar o alérgeno e aliviar os sintomas. Hoje, esta visão tornou-se obsoleta. «A imunologia permitiu-nos deixar de encarar a alergia como uma simples reação a um alérgeno e entendê-la como uma alteração do ecossistema imunitário», explica Laia. «A pergunta já não é apenas qual é o alérgeno que causa os sintomas, mas também por que razão a criança perdeu a tolerância, que barreira foi alterada, qual é o seu microbioma, que via inflamatória predomina e qual é o biomarcador que pode orientar o tratamento.»

A ponte entre este conhecimento científico e a sua aplicação prática tem um nome: investigação translacional. «Liga a pergunta clínica ao laboratório e fornece respostas ao doente», descreve Laia. É precisamente nesta interseção que se situa o CaixaResearch Institute, o novo centro de investigação em imunologia translacional promovido pela Fundação ”la Caixa”. Trata-se de um espaço concebido para reduzir a distância entre a descoberta científica e o impacto clínico em doenças complexas, através de três eixos de investigação: a imunologia e a sua relação com a saúde e as doenças; as ciências que estudam o expossoma; e a imunologia de sistemas. 

«Como ex-bolseira de pós-doutoramento da Fundação ”la Caixa”, este ponto é especialmente importante para mim», explica Laia. «Investir em imunologia é investir numa disciplina que liga alergias, doenças autoimunes, infeções, cancro, vacinas, microbioma e terapias avançadas.»

 

Tratar melhor, desde o início

Nas consultas, esta mudança de paradigma já se está a traduzir em novas ferramentas. «Até agora, contávamos com os anti-histamínicos, que aliviam os sintomas, mas que, por si só, não alteram o curso da resposta imunitária», observa Laia. «O futuro está em promover a recuperação da tolerância e modular a resposta imunitária.» Na prática, isto significa «introduzir alérgenos desde tenra idade, cuidar da pele de forma preventiva, e inclusivamente recorrer à imunoterapia respiratória e oral, medicamentos biológicos que bloqueiam respostas imunitárias específicas, e utilizar biomarcadores que permitem selecionar o tratamento mais adequado para cada doente», como explica Jaime Lozano.

Jaime Lozano

«Agora, não procuramos apenas que o doente tolere uma maior quantidade de alérgeno. Procuramos também compreender as alterações que ocorrem no seu sistema imunitário», acrescenta Laia Alsina. «É aí que reside o potencial científico: em passar de protocolos gerais para imunoterapia personalizada.» 

 

Poderemos pensar num futuro sem alergias?

Erradicá-las é provavelmente irrealista. «São doenças multifatoriais», reconhecem Laia e Jaime. Mas o futuro está longe de ser sombrio. «É possível prevenir formas graves, antecipar o risco e tratar melhor.» 

Para isso, o futuro passará por combinar a saúde pública e ambiental com a imunologia de precisão: «reduzir a poluição, proteger a biodiversidade, melhorar a saúde materno-infantil, cuidar do microbioma e das barreiras epiteliais, e identificar biomarcadores para aplicar imunoterapia ou medicamentos biológicos de forma personalizada», salienta Laia. E, nesta caminhada, a pediatria ocupa uma posição estratégica: «Temos uma oportunidade única, porque o sistema imunitário ainda está a aprender.»

Do ponto de vista ambiental, José é igualmente claro: «Existe uma pequena janela de oportunidade para agir: é possível travar o aumento se aplicarmos medidas concretas contra as alterações climáticas e a poluição.»

«Para além do seu impacto biológico, existe um custo humano e social que é frequentemente subestimado e que deve ser abordado pelas políticas públicas», explica José. «As alergias, por exemplo, as ambientais, podem durar semanas ou meses. A congestão nasal, a comichão nos olhos, o cansaço, a dificuldade em dormir afetam o dia a dia, reduzindo o rendimento no trabalho e nos estudos, aumentando o absentismo e gerando despesas de saúde e perdas de produtividade consideráveis.» 

E, tal como acontece com tantas outras condições de saúde, «o impacto é maior nas pessoas com menos recursos, que vivem frequentemente em zonas mais poluídas, sofrem sintomas mais intensos e enfrentam mais obstáculos no acesso aos cuidados de saúde.» 

Para Jaime, o objetivo final de toda a investigação é concreto e humano: «Que ninguém viva limitado pelo medo, por restrições desnecessárias ou pelo risco não controlado.» E a chave para o alcançar tem um nome: «Personalização. Cada doente tem um risco, uma família, um contexto e um fenótipo diferentes, e temos de aprender a ter isto em consideração».

A primavera continuará a existir, mas a forma como a medicina, a investigação e as políticas públicas lidam com as alergias está a mudar: há mais ferramentas, mais colaboração e uma compreensão cada vez mais maior do que acontece quando o sistema imunitário, em vez de nos proteger, nos coloca em estado de alerta perante o mundo.

Se quiser saber mais, a Dra. Laia Alsina deixou-nos algumas recomendações e fontes: 

Partilhar

0

Categoría:

Sem categoria

  • Arquivo