Quinta-feira 09

O mosaico da saúde

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Mas o que acontece quando alargamos o espectro desta definição e a analisamos a partir de diferentes disciplinas e abordagens? E como construímos esta saúde? 

Além do óbvio, a saúde tem muitas fronteiras que estão em constante exploração. O médico colombiano Héctor Abad Gómez, especialista em saúde pública e ativista dos direitos humanos, dizia que «a água potável salva mais vidas que o melhor dos cirurgiões». Assim, se a saúde é bem-estar, então não é criada apenas por médicos e hospitais, mas também por quem projeta cidades mais habitáveis, quem investiga vacinas, quem assegura o acesso a água potável, quem cultiva de forma sustentável e quem educa para reduzir as desigualdades, entre muitos outros fatores. 

Conversámos com os investigadores e bolseiros da nossa comunidade Laura Ciot, Marc Torrent, Héctor Huerga e Juan Argote para explorar estas fronteiras da saúde, saber o que é a saúde para eles e descobrir o papel que desempenham as respetivas disciplinas na saúde de todos. 

 

Manter o equilíbrio

Marc Torrent é investigador de microbiologia biomolecular na Universitat Autònoma de Barcelona (UAB) e para ele a saúde é «equilíbrio entre o corpo e o meio». Explica que «este equilíbrio depende da capacidade do corpo para se adaptar a mudanças físicas, químicas e sociais». Estas mudanças, que advêm do meio, podem ser causadas, por exemplo, «pelos agentes patogénicos, que interagem continuamente com as nossas defesas e com o microbioma que nos protege. Quando estas interações se mantêm em equilíbrio conservamos a saúde, mas quando se alteram aparece a doença», explica Marc. 

Marc Torrent

É a isto que Marc dedica a sua investigação e, graças a um apoio CaixaImpulse de Inovação em Saúde 2025, foca-se em «entender como interagem os agentes patogénicos com o corpo humano e que mecanismos utilizam para causar doença». Tradicionalmente, os antibióticos podem danificar a microbiota e provocar um desequilíbrio ao eliminar tanto as bactérias nocivas como as benéficas. No seu projeto, Marc explica-nos que «se analisa como estas interações alteram o equilíbrio entre o hospedeiro, as suas defesas e o microbioma», de modo que seja possível «conceber novos antibióticos para controlar a infeção de forma eficaz e, ao mesmo tempo, preservar o microbioma humano, um elemento essencial para manter a saúde a longo prazo». 

 

Uma só saúde

Para Laura Ciot, a saúde é «o bem-estar interligado e interdependente dos seres humanos, dos animais, das plantas e do ecossistema». É veterinária de saúde pública e está a fazer o doutoramento no Centro de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais (CREAF) graças a uma bolsa de doutoramento da Fundação ”la Caixa”. 

Laura Ciot

O seu percurso levou-a a estudar e analisar a saúde sob a abordagem «One Health» (em português, «Uma só saúde»), que «inclui o equilíbrio e o bem-estar dos ecossistemas e dos seres humanos, dos animais e das plantas», comenta. Adverte que explorar os ecossistemas e os seus recursos em vez de os preservar e de avaliar o nosso impacto faz com que «alteremos os equilíbrios e geremos efeitos que inevitavelmente afetam a saúde humana». Um exemplo disto é o setor agroalimentar, que, na sua procura pela maximização da produção, «provocou graves consequências: degradação do solo, contaminação química e perda de biodiversidade», explica Laura. A tese de doutoramento em que está a trabalhar analisa os efeitos dos pesticidas nas abelhas para mitigar, prevenir e evitar o declínio que estes produtos provocam nos polinizadores. Assim, contribui para a construção de um sistema alimentar mais sustentável. 

 

Adiantar-se às patologias

De acordo com a perspetiva profissional de Héctor Huerga, a saúde é «um equilíbrio dinâmico do sistema imunitário ao longo do tempo». Enquanto imunologista, comenta que «o nosso sistema imunitário está constantemente a adaptar-se ao meio e a processos internos como o envelhecimento», por isso «a saúde não é um estado fixo, mas sim um equilíbrio dinâmico que muda com o tempo». 

«Manter a saúde implica que este sistema funcione de forma equilibrada: respondendo quando é necessário e evitando reagir em excesso. Quando este equilíbrio é quebrado podem aparecer doenças inflamatórias, infeções ou cancro», salienta Héctor. 

Héctor Huerga

O que pode quebrar esse equilíbrio? Este cientista estuda de que forma as mutações que se acumulam nas células estaminais sanguíneas afetam o sistema imunitário; trata-se de um processo conhecido como hematopoiese clonal que foi relacionado com um maior risco de doenças cardiovasculares e inflamatórias, e cancro. Comenta que «entender estes mecanismos permite identificar novas estratégias para detetar precocemente estas alterações e desenvolver tratamentos personalizados que ajudem a prevenir ou reduzir o impacto na saúde da população». Por isso, desde dezembro, faz a sua investigação no CaixaResearch Institute como líder de grupo júnior, identificando marcadores que permitam prever que indivíduos desenvolverão patologias associadas à hematopoiese clonal. 

 

O transporte como motor do bem-estar

«A saúde é a capacidade de viver a vida que se escolhe», afirma Juan Argote, diretor de Soluções de Dados na empresa Aurora. A partir do setor dos transportes, Juan vincula o bem-estar à liberdade de acesso a opções. «Isto também se aplica à forma como nos deslocamos: um sistema de transporte saudável é aquele que liga as pessoas a oportunidades (trabalho, educação, comunidade) através de uma oferta diversificada de alternativas. E assegurar esse acesso independentemente dos rendimentos ou da localização aumenta as possibilidades vitais e contribui para o bem-estar físico, mental e social», explica este bolseiro. 

Juan Argote

Através do desenvolvimento de veículos autónomos, Juan explora como a tecnologia pode democratizar a mobilidade para quem não pode conduzir, bem como reduzir a sinistralidade de forma drástica. Explica que «a automatização tem o potencial de reduzir significativamente os acidentes de viação ao eliminar fatores de risco, como o cansaço ou as distrações humanas. Em grande escala, isto não só salva vidas, como também contribui para criar cidades mais seguras, mas eficientes e com menor carga sobre os sistemas de saúde». 

 

E, para si, o que é a saúde?

A saúde pode ser observada a partir da perspetiva mais pessoal – o corpo e a saúde individual – ou da dimensão coletiva, estendendo-se até uma perspetiva mais ampla – a saúde do planeta em que habitamos –, porque o bem-estar humano não pode ser separado do estado dos ecossistemas nem da relação que mantemos com outras espécies e com o nosso meio. 

Na Fundação ”la Caixa”, apoiamos pessoas e projetos que trabalham para a saúde e contribuem para o bem-estar da sociedade. 

Porque a saúde não é apenas a ausência de doenças ou afeções. A saúde é um mosaico que criamos entre todos. 

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