Novas oportunidades para vencer o cancro
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“Os ensaios clínicos não são apenas uma ferramenta de investigação, mas uma possibilidade real de tratamento para doentes que já esgotaram as suas opções“. Esta é a premissa com que a diretora da Unidad de Investigación de Terapia Molecular del Cáncer – CaixaResearch (UITM-CaixaResearch) do Vall d’Hebron Instituto de Oncología (VHIO), Elena Garralda, valida cada uma das novas terapias promovidas por esta unidade.
Um exemplo disto é o ensaio clínico do projeto europeu PragmaTIL, liderado pelo VHIO. Com a participação de 12 instituições de 6 países, entre elas a Fundação ”la Caixa”, este ensaio tratou o primeiro doente com uma imunoterapia inovadora. Qual é o seu objetivo? Melhorar o tratamento de pessoas com tumores resistentes, reduzindo a toxicidade do mesmo sem perder eficácia.
Esta imunoterapia designada por terapia com TIL (sigla para tumour infiltrating lymphocytes, linfócitos infiltrantes de tumor, em português) permite atacar as células tumorais com uma estratégia específica. Primeiro, são extraídas do tumor do doente células imunitárias chamadas linfócitos T. Depois da multiplicação e ativação dos linfócitos T, reforçando a sua capacidade, como se de um exército se tratasse, estes são reintroduzidos no doente para atacarem e destruírem as células tumorais mais eficazmente.
Esta nova terapia vem juntar-se à longa lista de avanços científicos que fazem a história da UITM. Hoje, Dia Mundial dos Ensaios Clínicos, vamos passá-los em revista com a sua diretora, Elena Garralda.
Falemos de conquistas e aprendizagens
Desde que abriu as portas há quase 15 anos, a UITM-CaixaResearch do VHIO estabeleceu-se como líder europeia em ensaios clínicos de fase inicial, com mais de 10 000 doentes e mais de 70 novos medicamentos e indicações aprovados.
“Orgulho-me do facto de três dos ensaios que liderámos terem sido first-in-human (primeiros ensaios em humanos) com fármacos desenvolvidos nos nossos próprios laboratórios, o que é um exemplo do modelo de investigação translacional que promovemos no VHIO: levar as descobertas do laboratório ao doente no mais curto espaço de tempo possível”, explica Elena Garralda.
15 anos de história não se resumem apenas a números. Também foram marcados por aprendizagens. “Através da investigação, conseguimos compreender melhor a biologia dos tumores e conceber medicamentos dirigidos a alterações genómicas específicas. Isto tornou possível saber, de uma forma mais precisa, que doentes podem beneficiar mais de um determinado tratamento. É o que se conhece por oncologia de precisão“, acrescenta Elena.
Mas a aprendizagem mais importante foi sobre os próprios ensaios clínicos: “Atualmente, encaramo-los como oportunidades terapêuticas reais para os doentes que não têm alternativas para o tratamento do seu tumor, por isso a forma como são desenhados e executados mudou bastante”, diz Elena.
A UITM-CaixaResearch dispõe de um programa de pre-screening molecular que permite analisar o perfil genómico de cada tumor antes de iniciar um ensaio clínico. Avanços como este, a par de uma estrutura especializada e multidisciplinar, permitiram reduzir o tempo entre o desenvolvimento de um medicamento em laboratório e o seu ensaio em doentes, passando de ciclos de 8 a 10 anos para 2 a 5 anos.

Elena Garralda, diretora da Unidad de Investigación de Terapia Molecular del Cáncer – CaixaResearch (UITM-CaixaResearch) do Vall d’Hebron Instituto de Oncología (VHIO).
Quais são os desafios a curto e médio prazo?
Para a diretora da UITM-CaixaResearch, estamos perante dois grandes desafios: reduzir a toxicidade das terapias e compreender a heterogeneidade do cancro. Não existe um único tipo de tumor. Mesmo dentro do mesmo órgão, os cancros podem ter alterações genéticas muito diferentes, o que dificulta a descoberta de novas terapias e biomarcadores.
“Trabalhamos para saber quem pode realmente beneficiar de um determinado tratamento e apostamos cada vez mais em novas estratégias terapêuticas com perfis de toxicidade mais favoráveis, como a imunoterapia”, explica Elena. “O nosso objetivo não é apenas prolongar a vida dos doentes, mas fazê-lo conservando ao máximo o seu bem-estar físico e emocional durante o processo.
Neste caminho em direção à medicina personalizada, a tecnologia desempenhará um papel decisivo. A inteligência artificial e a medicina de dados prometem transformar a forma como os ensaios clínicos são concebidos e monitorizados, tornando-os mais ágeis, acessíveis e representativos.
Esperamos poder escrever sobre estes desenvolvimentos muito em breve.
