Quarta-feira 19

Mulheres empreendedoras que querem transformar a saúde

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Melanie Perkins, cofundadora da Canva, Arianna Huffington, fundadora do The Huffington Post, Jennifer Doudna, Prémio Nobel da Química 2020 pelo desenvolvimento da tecnologia de edição genética CRISPR-Cas9 e fundadora de várias start-ups científicas, e Daphne Koller, cofundadora da Coursera, fazem parte do ainda muito pequeno grupo de mulheres que lideram empresas capazes de ditar as novas regras da inovação.

O paradigma está a mudar, mas o cenário ainda é francamente desigual. As mulheres só possuem uma em cada quatro empresas a nível global e, só na Europa, representam 73% dos empreendedores “em falta”. Isto significa que poderiam existir mais 5,5 milhões de mulheres a abrir e a gerir negócios se contassem com as mesmas oportunidades e participassem nas fases iniciais do empreendedorismo ao mesmo ritmo que os homens entre os 30 e os 49 anos.

Os dados são tão reveladores quanto paradoxais: as mulheres ultrapassam sistematicamente os homens na obtenção de diplomas universitários, mas, à medida que os anos passam e que sobem na hierarquia empresarial, deparam-se com o famoso “teto de vidro” e a sua representação em altos cargos cai a pique.

Esta situação não é exceção na área científica, onde a hierarquia e a distribuição dos recursos há muito que se regem pelos mesmos padrões. No entanto, cada vez mais investigadoras escolhem dar o salto do laboratório para o mercado.

Por ocasião do Dia Mundial da Mulher Empreendedora, conversámos com Pilar Coy, Malu Martínez e Valle Palomo, três investigadoras do programa CaixaImpulse que decidiram empreender para transferir o impacto do seu conhecimento científico para a sociedade.

 

O impulso de empreender

«Após mais de 30 anos a fazer investigação, vi a oportunidade de fazer com que os resultados do nosso trabalho tivessem impacto na melhoria da vida das doentes.» 

Foi este impulso que levou Pilar Coy, investigadora da Universidade de Múrcia, a assentar a primeira pedra do seu projeto: desenvolver um dispositivo minimamente invasivo para a deteção precoce do cancro do endométrio.

Pilar Coy

Este mesmo impulso guiou também Malu Martínez, que está a desenvolver uma estratégia terapêutica baseada em RNA para doenças hepáticas no centro de investigação CIC bioGUNE, na Biscaia, e Valle Palomo, que está a estudar um biomarcador para um diagnóstico mais precoce da esclerose lateral amiotrófica (ELA) no instituto IMDEA Nanociencia, em Madrid.

A investigação de base cria as raízes do conhecimento que dão origem ao desenvolvimento de todos os avanços científicos. «É por isso que a ciência, apesar de ser, por vezes, entendida como um luxo, é uma necessidade», explica Malu. «E é também por isso que empreender nesta área significa transformar ideias em soluções reais.»

 

Começar do zero

«Empreender pressupõe remar contra a maré constantemente», reconhece Valle. «É um caminho complicado, mas, para mim, a investigação não faz sentido se não tentarmos transferi-la.» 

Os desafios para o conseguir são muitos, e a vários níveis. «O desafio científico é construir uma base sólida que justifique o investimento. Sem financiamento não se consegue passar do primeiro degrau, por isso é fundamental aprender a procurá-la, geri-la e justificá-la», explica Malu. «A nível emocional, o caminho é uma verdadeira montanha-russa: a incerteza é maior do que a investigação, porque muitas decisões escapam ao nosso controlo.» 

Malu Martínez

De certa forma, empreender, na ciência, significa começar do zero. «Quando já estava no fim da minha carreira, tive de aceitar que empreender significava entrar num mundo novo, apaixonante e gratificante em alguns aspetos, mas que iria absorver toda a minha energia», explica Pilar. 

Na verdade, saltar para o empreendedorismo implica uma reinvenção pessoal. «Precisamos de dominar competências que não se ensinam no laboratório», assinala Valle. «Propriedade intelectual e industrial, modelos de negócio, dinâmicas de mercado, viabilidade de projetos, etc.». «Também requer aprender a negociar, a comunicar fora da linguagem científica e, em particular, a escutar», acrescenta Malu. «Porque, muitas vezes, as decisões não se baseiam apenas em dados, mas também em interesses, perceções, e até intuições.»

 

Contra o teto de vidro

«Ainda existem muitas barreiras, estruturais e culturais, que dificultam o acesso a financiamento e recursos por parte de projetos liderados por mulheres», aponta Valle. 

Valle Palomo

«Não temos a mesma visibilidade nem acesso às redes de decisão ou investimento. Enfrentamos frequentemente preconceitos inconscientes que colocam em dúvida a nossa capacidade de liderança ou a nossa visão estratégica, sobretudo em setores tradicionalmente dominados por homens», acrescenta Malu.

A isto soma-se um desafio importante: a conciliação. «O empreendedorismo exige uma dedicação enorme e muitas mulheres têm de conciliá-lo com tarefas familiares que nem sempre são distribuídas de forma equitativa.» Para não falar da falta de referências visíveis, que complica o caminho. «Ver outras mulheres a liderar empresas, a negociar com investidores ou a licenciar tecnologias é inspirador, mas ainda pouco comum», assinala Malu. «Precisamos de tornar estes casos mais visíveis e criar espaços onde todas as mulheres possam desenvolver-se sem obstáculos acrescidos.»

Pilar lembra que também há barreiras internas. «Às vezes, impomo-nos limites a nós próprias, por autoexigência ou sentido de responsabilidade familiar, que nos afastam do mundo empresarial.» 

 

Fazer-se acompanhar na viagem 

«Fazer parte do programa CaixaImpulse tornou a minha vida mais fácil desde o primeiro minuto», afirma Pilar Coy. «Para empreender, precisamos de nos rodear de especialistas do mundo dos negócios desde o início. Só com cientistas na equipa, não vamos a lado nenhum.» 

«O Programa deu-nos acesso a profissionais determinantes no processo: desde a licença até às conversas com investidores. Foi, sem dúvida, um ponto de inflexão no nosso caminho de empreendedorismo», acrescenta Malu. 

Valle concorda: «Contamos com mentoria personalizada e formação de altíssima qualidade, focada em cobrir as necessidades não atendidas que os investigadores têm. Há um compromisso real com o sucesso dos nossos projetos.»

 

Para abrir caminho

«Empreender como cientista não só é possível, como é necessário», afirma Malu. «Se está a pensar nisso: força, sem medos. É um caminho cheio de desafios, mas também cheio de momentos incríveis. Não tenha medo de perguntar, aprender e deixar-se guiar.»

Para Valle, «vale a pena tentar e não ficar a pensar no que poderia ter acontecido se tivesse tentado. Quantas mais formos, mais fácil será para as que vierem depois de nós.»

Como lembra Malu, «empreender na ciência, sendo mulher, ainda implica um esforço adicional. Por isso, de certo modo, empreender como mulher cientista também é um ato de resistência e transformação. Aqui estamos nós, a abrir caminho.»

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