“Deslocação”
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Criar, observar, pensar, corrigir, repensar… Diria que estes passos fazem parte do trabalho de um artista ou de um investigador?
Sem contexto, é difícil saber, não é? Mas, se à cena acrescentarmos pincéis e estátuas, ou pipetas e microscópios, a resposta pode parecer mais óbvia. Portanto, na sua essência, não serão a arte e a ciência mais parecidas do que julgamos?

Neste novo Instantâneo CaixaResearch, acompanham-nos David Sancho, investigador da nossa rede no Centro Nacional de Investigaciones Cardiovasculares (CNIC) de Madrid, e Guillermo Mora, artista visual e bolseiro da Fundação ”la Caixa”.
Juntos, vamos partir de uma imagem científica para explorar uma descoberta biomédica inovadora e, ao mesmo tempo, revelar o que a criação artística e a investigação científica têm em comum. Vamos começar com o Guillermo.
Imagine que esta imagem estava exposta numa galeria de arte. O que vê?
G: Tem um aspeto cartográfico. Vejo movimento, algo a separar-se e a mover-se. Se tivesse de lhe dar um título, seria “Deslocação”.
Se fosse uma obra de um artista, de quem poderia ser?
G: Faz-me lembrar algumas obras da artista britânica Karla Black. As suas instalações com produtos cosméticos como o talco e o pó de maquilhagem são apresentadas sob forma de paisagens abstratas e convidam-nos a redescobrir o espaço.

Guillermo Mora, artista plástico e bolseiro da Fundação ”la Caixa”.
Pois é, David, como diz o Guillermo, a vossa imagem poderia ser perfeitamente uma peça de exposição. Mas o que é que estamos efetivamente a ver na imagem?
D: Estamos a ver a coloração das artérias na base da aorta. As zonas avermelhadas marcam as placas de gordura típicas da aterosclerose acumuladas nas suas paredes. Quando estas placas se quebram, forma-se um trombo que pode obstruir os vasos sanguíneos e provocar um enfarte ou um AVC.
Pode dizer-nos qual é a descoberta por detrás da imagem?
D: Descobrimos que as células do sistema imunitário, chamadas células dendríticas de tipo 1 (cDC1), podem ativar outras células, os linfócitos T, que contribuem para a aterosclerose, ao formar placas de gordura e inflamar as artérias.
Através de imagens como esta, vimos que, ao eliminar as cDC1s em modelos animais, as placas de gordura diminuíram consideravelmente. A partir daí, desenvolvemos uma terapia experimental em modelos animais que atua diretamente sobre estas células para travar a doença.
Parece ser uma descoberta com grande potencial. Que impacto acham que terá na área da saúde?
D: A aterosclerose é uma das principais causas de morte em todo o mundo. Atualmente, é tratada através do controlo dos fatores de risco, como o colesterol e a pressão arterial.
A nossa descoberta abre as portas a uma nova geração de terapias mais seguras e eficazes que, em vez de visarem apenas o colesterol, atuam na origem imunitária da doença. Isto poderia melhorar a vida de milhões de pessoas, especialmente daquelas que não respondem bem aos tratamentos atuais ou que sofrem de efeitos secundários. Além disso, estabelece as bases para o desenvolvimento de terapias personalizadas que podem modular com precisão o sistema imunitário nas doenças cardiovasculares.

Investigadores do CNIC. Da esquerda para a direita: Sarai Martínez, Marcos Femenía, Elena Hernández, Vanessa Núñez, Manuel Rodrigo, Miguel Galán (primeiro autor), Iñaki Robles, Alberto Benguría, David Sancho e Almudena Ramiro.
Não podemos terminar esta entrevista sem a resposta a uma pergunta-chave. Guillermo, qual é, na sua opinião, a ligação entre a arte e a ciência?
G: Penso que se ligam na ideia de um laboratório. Para mim, o atelier de um artista é muito semelhante a um laboratório: em ambos há pesquisa, experimentação, tentativa e erro.
Curiosamente, Guillermo vê deslocação na imagem. David também, mas de uma perspetiva diferente: o desprendimento das placas nas artérias. É o que acontece quando a arte e a ciência se sentam para observar a mesma coisa: cada uma traz uma forma nova e única de compreender a realidade.
