Sexta-feira 25

El nuevo mapa de las enfermedades tropicales

Publicado em

Acordas numa manhã de verão e descobres várias picadelas na pele. Dias depois, tens febre, náuseas e dores intensas nas articulações. No consultório médico, recebes um diagnóstico inquietante: dengue. “Mas não é uma doença exótica?”, perguntas-te a ti próprio. A resposta é óbvia: já não.

Embora possa parecer o início de um romance distópico, este fragmento pode muito bem ser o reflexo de experiências reais vividas por pessoas que moram na sua cidade. Em Espanha, por exemplo, têm-se registado alguns casos autóctones de doenças tropicais que, até há pouco tempo, ainda não tinham pisado solo europeu. O mais preocupante é que não se trata de incidentes isolados, mas sim de sinais de uma mudança mais profunda. 

«Algumas delas só costumavam ocorrer esporadicamente, como a febre do Nilo Ocidental, mas agora são endémicas. Outras, como a dengue, a zica e a chicungunha, chegam como casos importados e, esporadicamente, provocam pequenos surtos na Europa», explica Jordi Figuerola, investigador CaixaResearch da Estación Biológica de Doñana (CSIC) e Centro de Investigación Biomédica en Red de Epidemiología y Salud Pública (CIBERESP).

Jordi Figuerola, investigador CaixaResearch da Estación Biológica de Doñana (CSIC) e Centro de Investigación Biomédica en Red de Epidemiología y Salud Pública (CIBERESP).

Tal como acontece com qualquer emergência sanitária, é fundamental compreender a razão da sua ocorrência para a enfrentar. «O crescimento demográfico e a desflorestação estão a alterar o habitat dos animais capazes de propagar doenças tropicais. Além disso, as alterações climáticas e a mobilidade internacional favorecem a disseminação dos agentes patogénicos e dos insetos vetores, como os mosquitos e as carraças», explica José Muñoz, chefe do Serviço de Saúde Internacional do Hospital Clínic e investigador do ISGlobal, em Barcelona.

«Para evitar a sua propagação, não basta saber onde estão os agentes patogénicos. É preciso saber que vetores vivem em cada zona e como interagem com os animais e os seres humanos. Se reduzirmos o vetor, poderemos reduzir as possibilidades de infeção», acrescenta Aitana Oltra, bolseira da Fundação ”la Caixa”, especialista em gestão da ciência no Centro de Estudios Avanzados de Blanes (CEAB-CSIC) e co-fundadora do projeto Mosquito Alert, com apoio da CaixaResearch.

Nos países onde estas doenças são endémicas, existem programas de controlo adaptados a cada caso, como redes mosquiteiras impregnadas para o mosquito transmissor da malária. Na Europa, por outro lado, a estratégia consiste em evitar que estas doenças se instalem e se iniciem ciclos de transmissão.

A equipa de José Muñoz está a desenvolver um modelo de vigilância chamado FAMBA, baseado na mobilidade internacional. «Trata-se de um sistema de telemedicina para viajantes que recolhe dados de saúde em tempo real e analisa-os com inteligência artificial para detetar doenças emergentes de forma precoce», explica. «O nosso objetivo é realizar uma prova de conceito a nível europeu para demonstrar a sua eficácia.»

José Muñoz, chefe do Serviço de Saúde Internacional do Hospital Clínic e investigador do ISGlobal, em Barcelona.

Jordi Figuerola, por seu turno, está a centrar a sua investigação no vírus do Nilo Ocidental, cuja incidência continua a aumentar em Espanha, onde foram registados 158 casos e 20 mortes em 2024. «Pretendemos criar modelos preditivos da abundância de mosquitos e o risco de transmissão do vírus para melhorar o seu controlo. Graças ao nosso trabalho, descobrimos novas espécies de vetores e detetámos a circulação do vírus um mês antes de se produzirem os primeiros casos em humanos.»

A participação dos cidadãos também desempenha um papel crucial na monitorização de vírus e vetores. Como demonstra a aplicação Mosquito Alert, «graças ao envolvimento da sociedade e às novas tecnologias, a plataforma é capaz de recolher dados e fotografias quase em tempo real sobre os mosquitos vetores na Europa, detetando mesmo novas espécies em locais onde não eram conhecidas anteriormente. Esta informação permite ativar rapidamente os protocolos de controlo», explica Aitana. 

O envolvimento dos cidadãos enriqueceu muito a recolha de dados e acelerou a deteção de vetores em vastos territórios, ultrapassando as limitações dos métodos tradicionais. Além disso, «uma sociedade informada e ativa estará mais bem preparada para implementar medidas de controlo e compreender a complexidade do problema», acrescenta Aitana.

Aitana Oltra, bolseira da Fundação ”la Caixa”, especialista em gestão da ciência no Centro de Estudios Avanzados de Blanes (CEAB-CSIC) e co-fundadora do projeto Mosquito Alert, com apoio da CaixaResearch.

De facto, enquanto a investigação avança, há muita coisa que se pode fazer para preparar os cidadãos para esta nova ameaça. «A nossa proteção começa em casa: esvaziar os recipientes com água parada onde os mosquitos se podem reproduzir, como os pratos debaixo dos vasos das plantas e os depósitos de ar condicionado.  Também convém proteger as janelas com redes mosquiteiras e, nas zonas onde este inseto é abundante, usar mangas compridas e repelente», explica Jordi.

«O mais importante é seguir as orientações das autoridades de Saúde Pública. No verão, por exemplo, há uma maior densidade de mosquitos-tigre e mais casos de dengue diagnosticados em Espanha», adverte José.

O mapa das doenças infeciosas está em constante mudança. Os especialistas são claros: a ciência, a prevenção e a participação ativa da sociedade são fundamentais. Só assim conseguiremos antecipar os riscos, estar mais bem preparados e evitar cenários tão perturbadores como aquele com que abrimos este artigo.

Partilhar

0

Categoría:

Sem categoria

  • Arquivo