Sexta-feira 14

Deixando a insulina para trás

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A descoberta da insulina em 1921 transformou radicalmente a diabetes. Deixou de ser uma doença mortal para se tornar uma condição crónica, complexa, mas controlável. E, atualmente, cem anos após a sua descoberta, a insulina continua a ser o tratamento de referência. 

Apesar dos enormes avanços tecnológicos (bombas de insulina inteligentes, sensores de glicose, algoritmos de controlo), o seu princípio terapêutico não mudou: a substituição de uma hormona que o organismo já não consegue produzir ou utilizar corretamente. Porém, embora salve vidas, a insulina continua a ser apenas uma solução temporária: não cura a doença nem evita as suas complicações a longo prazo.

Por ocasião do Dia Mundial da Diabetes, explorámos novas linhas de investigação que procuram dar mais um passo: libertar os doentes da dependência do tratamento crónico, bem como melhorar a sua qualidade de vida e, talvez um dia, alcançar a cura definitiva.

 

Uma pandemia do século XXI

Em 2024, a diabetes afetava 589 milhões de adultos, e as projeções para o futuro são desoladoras: 643 milhões em 2030 e 853 milhões em 2050, de acordo com a Federação Internacional da Diabetes (IDF).  

Da população afetada, mais de 90% tem diabetes tipo 2 (DT2) e 5 a 8% diabetes tipo 1 (DT1). É importante fazer a distinção entre estes dois tipos principais de diabetes. 

A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, causada por uma combinação de fatores genéticos e ambientais, que desencadeia uma resposta imunitária anormal: o próprio sistema imunitário ataca as células β do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. «Como resultado disso, ocorre uma inflamação local e estas células morrem progressivamente, o que acaba por impedir o doente de gerar insulina suficiente», explica Lorenzo Pasquali, investigador da rede da Fundação ”la Caixa” no Departamento de Medicina e Ciências da Vida da Universidade Pompeu Fabra (UPF), em Barcelona. 

Lorenzo Pasquali

No caso da diabetes tipo 2, por outro lado, o organismo pode não produzir insulina suficiente para satisfazer as suas necessidades ou, mesmo que produza insulina, pode não ser capaz de a utilizar corretamente, devido a uma combinação de fatores de risco, que incluem obesidade, sedentarismo e predisposição genética.

Em ambos os casos, há um excesso de açúcar no sangue, que, a longo prazo, pode causar úlceras, problemas visuais, lesões nos rins, AVC e o enfraquecimento do sistema imunitário, afetando gravemente a saúde do doente.  

 

O fardo invisível do tratamento

«Para os doentes com diabetes tipo 1, o tratamento de referência envolve várias injeções diárias ou bombas de insulina, além da monitorização contínua da glicose», explica Lorenzo Pasquali. «É uma rotina exigente, que requer atenção constante, e que tem impacto na saúde mental e no dia a dia das pessoas afetadas.»

No caso da diabetes tipo 2, o panorama terapêutico é mais diversificado e depende das características clínicas de cada doente. «Geralmente, começa com mudanças no estilo de vida (dieta, exercício, controlo de peso), seguidas de medicamentos que diminuem a glicose no sangue, como a metformina e, mais recentemente, os inibidores do SGLT2 e os agonistas do recetor do GLP-1», afirma o investigador. «Mas, quando estas opções falham, a insulina volta a ser o último recurso.»

No entanto, apesar dos avanços atuais, a insulina não consegue replicar a precisão com que o pâncreas regula os níveis de glicose. «Isto pode causar hipoglicemia ou outras complicações que, com o passar do tempo, irão afetar a saúde do doente», diz Lorenzo Pasquali. 

 

Uma solução para a vida

«As grandes empresas farmacêuticas desenvolvem muito mais terapias e dispositivos para a diabetes tipo 2, porque o mercado é muito maior», afirmou Esther Latres, diretora da Fundação Breakthrough T1D, nesta entrevista. Desde 2024, esta organização colabora com a Fundação “la Caixa” no financiamento de projetos de investigação com um objetivo: «melhorar a vida das pessoas que vivem com DT1, mas também promover terapias verdadeiramente curativas». 

Esther Latres

Esta é a linha de investigação de Lorenzo Pasquali, que está a estudar a utilização de terapias capazes de regenerar o organismo para restaurar a sua capacidade de produzir insulina. Estas estratégias, conhecidas como “terapias celulares”, baseiam-se no transplante de ilhéus pancreáticos ou de células β derivadas de células estaminais. Os resultados são incipientes, mas já apontam para uma possível cura funcional da doença.

«O desafio é fazer com que as novas células sobrevivam ao ataque do sistema imunitário sem necessidade de imunossupressores», explica o investigador. A sua equipa está a estudar a forma como a inflamação e a predisposição genética influenciam a destruição das células β para criar versões mais resistentes. «Já identificámos genes que podem aumentar esta proteção e estamos a testar modificações genéticas com resultados promissores», acrescenta.

Desenvolvimentos recentes confirmam este potencial. Em agosto de 2025, dois estudos publicados no New England Journal of Medicine demonstraram que as células β derivadas de células estaminais conseguem produzir insulina durante meses sem a necessidade de medicamentos imunossupressores. Embora os ensaios ainda sejam reduzidos, representam um marco importante. «São provas de conceito que demonstram que é possível uma cura funcional», afirma Lorenzo Pasquali. «O próximo desafio será garantir a sua segurança, durabilidade e acessibilidade para que possam chegar a todos os doentes.»

 

Rumo a uma nova era

O horizonte da investigação sobre a diabetes aponta para novas terapias capazes de restaurar a produção natural de insulina e reduzir a dependência de tratamentos externos.

«Podemos estar ainda longe de uma cura universal, segura e acessível», reconhece Lorenzo Pasquali. «Mas já vislumbramos um futuro em que os doentes com diabetes tipo 1 poderão viver mais tempo sem insulina e com uma melhor qualidade de vida.»

Um século após a sua descoberta, a insulina continua a salvar milhões de vidas, mas a ciência está cada vez mais perto de oferecer algo ainda mais valioso: a possibilidade de lhe dizer adeus.

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