Porque é que a incidência do cancro do cólon está a aumentar entre os jovens?
Publicado em
Este ano, o cancro do cólon e do reto voltará a ser um dos tipos de tumores mais diagnosticados em Espanha.
De acordo com a Sociedade Espanhola de Oncologia Médica (SEOM), este ano serão detetados 44 573 novos casos em Espanha. A nível mundial, a incidência desta doença duplicou nos últimos 20 anos, afetando cada vez mais pessoas com menos de 50 anos. Esta tendência é particularmente preocupante em alguns países ocidentais, onde fatores como mudanças na alimentação e no estilo de vida, sedentarismo, alterações no microbioma intestinal e exposição a determinados fatores ambientais adversos podem estar a desempenhar um papel fundamental.
O que está a causar o aumento de casos entre os jovens? Como podemos reduzir estes números?
No último Debate CaixaResearch, aprofundámos a realidade do cancro do cólon: os desafios do seu diagnóstico e tratamento precoces e os últimos avanços nesta matéria, com a colaboração de quatro investigadores de referência:
– Eduard Batlle, investigador do ICREA, chefe do laboratório de Cancro Colorretal no IRB Barcelona e chefe de grupo no CIBER do Cancro (CIBERONC). O seu trabalho visa compreender a forma como as células tumorais metastizam.
– Angélica Figueroa investigadora R4, líder do grupo Plasticidade Epitelial e Metástases do Instituto de Investigação Biomédica (INBIC) do Complexo Hospitalar Universitário A Coruña (CHUAC). Com o apoio do programa de inovação da Fundação ”la Caixa”, está a desenvolver um medicamento para travar as metástases do cancro do cólon.
– Toni Gabaldón investigador do ICREA e chefe de laboratório de Genómica Comparativa do IRB Barcelona e do Centro de Supercomputação de Barcelona (BSC). Está a trabalhar num projeto com o apoio do CaixaImpulse de desenvolvimento de um sistema de deteção precoce não invasivo que combina a análise da microbiota intestinal com algoritmos de inteligência artificial.
– Elena Élez, médica oncologista do Hospital Universitário Vall d’Hebron de Barcelona (HUVH) e chefe do grupo de cancro colorretal do Instituto de Oncologia Vall d’Hebron (VHIO), onde trabalha no desenvolvimento de novas terapias para tratar o cancro do cólon metastático.
De seguida, passamos em revista as principais ideias que os quatro especialistas abordaram durante o debate, moderado por Beatriz Pérez, jornalista de saúde no El Periódico de Catalunya.
Compreender o cancro do cólon
O que é o cancro do cólon?
«O cólon é a parte mais longa do intestino grosso e é revestido internamente por uma camada de células chamada mucosa. Com o passar dos anos, esta mucosa tem tendência para desenvolver estruturas geralmente benignas, designadas por pólipos ou adenomas. No entanto, certas mutações podem alterar o seu comportamento e fazer com que as células comecem a infiltrar-se na parede intestinal, dando origem ao adenocarcinoma do cólon, o tipo de tumor mais frequente nesta zona.» – Elena Élez
«A mucosa intestinal é o tecido que se regenera mais rapidamente no nosso corpo. Graças às células estaminais, toda a parede do intestino se regenera praticamente todas as semanas. Quando ocorrem determinadas mutações, este equilíbrio entre a morte e a regeneração das células quebra-se e as células começam a acumular-se. Inicialmente, são benignas (metade da população com mais de 50 anos desenvolve um destes pólipos benignos), mas com o tempo podem evoluir para um tumor mais agressivo.» – Eduard Batlle
Qual é a incidência na população?
«O cancro do cólon é o terceiro cancro mais comum em todo o mundo, com 1,9 milhões de novos casos por ano, e o segundo mais mortal. Em Espanha, é o segundo tumor mais frequente nos homens, depois do cancro da próstata, e nas mulheres, depois do cancro da mama, com mais de 44 500 diagnósticos por ano. Representa cerca de 10% de todos os cancros e causa cerca de 11 000 mortes por ano, sendo o segundo cancro mais mortal a seguir ao cancro do pulmão.» – Angélica Figueroa

Angelica Figueroa.
«Os casos também estão a aumentar em Espanha. Esta tendência deve-se principalmente a um aumento do número de casos detetados, graças ao programa de rastreio da população, mas também a um aumento de fatores de risco relacionados com o estilo de vida, como uma alimentação pouco saudável, a falta de exercício e o sedentarismo. Um dado preocupante é o aumento de casos em pessoas com menos de 50 anos em alguns países, como os Estados Unidos e a Nova Zelândia. Embora em Espanha esta tendência ainda não tenha sido confirmada nos registos, é um aspeto que começamos a notar nas consultas e que estamos a acompanhar de perto.» – Elena Élez
Sintomas, rastreio e deteção precoce
Quais são os sintomas do cancro do cólon?
«É essencial estarmos atentos a possíveis alterações dos nossos hábitos intestinais. Embora a obstipação, por si só, não seja um fator de risco, uma tendência constante para a obstipação ou, pelo contrário, episódios frequentes de diarreia devem ser motivo de consulta. Existem também sintomas mais evidentes, como presença de sangue nas fezes, cansaço persistente acompanhado de anemia ou perda de peso sem causa aparente. Em geral, qualquer alteração prolongada do padrão habitual deve ser avaliada por um médico.» – Elena Élez
Porque é que tende a ser detetado tardiamente nos jovens?
«O atraso no diagnóstico deve-se a vários fatores. O cancro do cólon nos jovens é menos frequente, o que reduz a suspeita por parte dos médicos e dos próprios doentes. Além disso, os seus sintomas são inespecíficos, o que dificulta a sua deteção precoce. Ainda para mais, em geral, os tumores nos jovens tendem a ser mais agressivos e a progredir mais rapidamente, pelo que tendem a ser diagnosticados em fases mais avançadas.» – Angélica Figueroa
Em que consistem os programas de rastreio em duas fases?
«Em Espanha, o rastreio do cancro colorretal é proposto a pessoas com idades compreendidas entre os 50 e os 69 anos, mesmo que não apresentem sintomas. Numa primeira fase, os participantes recebem um kit para recolher uma pequena amostra de fezes, que é depois analisada no hospital para detetar a presença de hemoglobina, um indicador de possíveis hemorragias no intestino. Se o resultado for positivo, é efetuada uma colonoscopia, um exame mais detalhado que utiliza uma sonda com câmara para identificar pólipos, lesões ou tumores.» – Toni Gabaldón

Toni Gabaldón.
«Esta abordagem em duas fases combina um primeiro teste simples, económico e não invasivo com um segundo teste mais exato, mas também mais dispendioso e invasivo. Graças a este sistema, foram identificados inúmeros tumores e lesões pré-cancerosas, melhorando o diagnóstico precoce e aumentando a probabilidade de sucesso do tratamento e a sobrevivência dos doentes.» – Toni Gabaldón
Como é que o sistema de rastreio pode ser melhorado?
«O rastreio é um instrumento muito valioso, mas tem limitações. O seu custo elevado e a necessidade de efetuar um grande número de testes representam um encargo considerável para o sistema de saúde. Além disso, a taxa de falsos positivos é elevada: cerca de 5% dos testes detetam sangue oculto nas fezes, mas menos de 30% das pessoas que se submetem à colonoscopia têm uma anomalia clinicamente relevante. Se conseguíssemos reduzir estes falsos positivos, poderíamos alargar o rastreio a outros grupos populacionais.» – Toni Gabaldón
«Estão a ser investigados novos biomarcadores mais específicos do que a hemoglobina para melhorar a eficácia do rastreio. No IRB Barcelona, estudamos a microbiota intestinal para identificar bactérias associadas a pólipos e tumores. Utilizando a inteligência artificial, estamos a treinar um algoritmo que ajuda a selecionar melhor as pessoas que realmente precisam de uma colonoscopia com base no seu perfil microbiano. Esta técnica poderá reduzir em 30% as colonoscopias desnecessárias, reduzindo assim os encargos para o sistema de saúde.» – Toni Gabaldón
O rastreio deve ser iniciado numa idade mais precoce?
«A medicina deve ser sempre aplicada onde a utilização dos recursos for mais eficiente. A incidência do cancro colorretal continua a ser muito menor nas pessoas com menos de 50 anos de idade. Se tivéssemos sistemas de rastreio mais eficientes, poderíamos falar em alargar os grupos etários, especialmente se acabarmos por constatar que os casos estão de facto a aumentar na população mais jovem.» – Toni Gabaldón
«Além de reduzir a idade de rastreio, é essencial melhorar a participação nos programas atuais. Na população com mais de 50 anos, a taxa de comparência não chega aos 100%, o que limita a sua eficácia. Se implementarmos o rastreio em pessoas mais jovens, mas apenas uma pequena fração se submeter ao teste, o seu impacto real será muito reduzido.» – Angélica Figueroa
Quais são as causas?
Qual a importância do fator genético no desenvolvimento da doença?
«Cerca de 10% dos cancros do cólon têm algum tipo de condição genética. As pessoas que herdaram estas mutações têm uma probabilidade muito elevada de contrair cancro do cólon, mas estamos a falar de uma percentagem muito pequena da população. Normalmente, estas famílias, devido ao seu historial, já têm um acompanhamento específico. Em geral, a grande maioria dos cancros do cólon são de origem esporádica.» – Eduard Batlle

Elena Élez.
«tentamos sempre procurar um padrão hereditário, que haja familiares que, geração após geração, tenham tido um destes tumores. Se este padrão existir, o doente é encaminhado para uma unidade de alto risco. No entanto, a melhor recomendação é sempre participar no programa de rastreio quando chegar a nossa vez, porque nem sempre é fácil ter informações sobre os antecedentes familiares.» – Elena Élez
Qual a sua relação com doenças como o cólon irritável ou a doença de Crohn?
«Foi demonstrado que as doenças inflamatórias do intestino podem ser um fator de risco para o desenvolvimento de cancro colorretal. No entanto, estes doentes são monitorizados para prevenir o seu desenvolvimento e diagnosticá-lo precocemente.» – Elena Élez
Qual é o papel da microbiota?
«O intestino e a mucosa onde se desenvolve o cancro do cólon é um ecossistema povoado por uma grande variedade de microrganismos. Esta é, de facto, a zona do corpo onde o microbioma humano é mais diversificado e abundante. Estes micróbios não estão simplesmente presentes no intestino. Eles interagem constantemente com as mucosas. Algumas destas interações podem promover o desenvolvimento de tumores, enquanto outras são mais benéficas.» – Toni Gabaldón
«Embora ainda haja muito por compreender, sabemos que determinados microrganismos interagem de forma mais agressiva com as nossas mucosas, gerando inflamação. Se esta inflamação se tornar crónica e persistir ao longo do tempo, pode danificar os tecidos. Além disso, algumas bactérias libertam toxinas que atacam diretamente as células da mucosa, o que pode levar a mutações e aumentar o risco de tumores. Sabemos também que este ecossistema microbiológico está em constante processo de metabolização, produzindo compostos que são por vezes explorados pelas células tumorais para acelerar o seu crescimento.» – Toni Gabaldón
O risco de metástases e os possíveis tratamentos
Como é que o cancro do cólon se propaga e metastiza?
«Estes tumores crescem primeiro na parede da mucosa do cólon, mas alguns invadem os tecidos adjacentes e disseminam as suas células através da corrente sanguínea, acabando por colonizar outros órgãos. A cirurgia é um tratamento eficaz para o tumor primário e a maioria dos doentes não morre por causa deste. No entanto, o grande desafio são as metástases, uma vez que estas células podem instalar-se em órgãos vitais como o fígado ou os pulmões, o que dificulta o seu tratamento. Mesmo alguns doentes que chegam com um tumor localizado que é removido acabam por desenvolver metástases em poucos anos.» – Eduard Batlle
«Inicialmente, esta metástase é quase invisível no doente. Após a remoção do tumor primário, não sabemos onde estão estas células residuais nem qual o seu aspeto, e não sabemos como as remover eficazmente. Metade das metástases do cancro do cólon ocorre no fígado, cerca de 25% no pulmão e outro tanto no peritoneu, que é a cavidade ocupada pelas nossas vísceras.» – Eduard Batlle
Que percentagem de doentes desenvolve metástases?
«No momento do diagnóstico inicial, cerca de 30% dos doentes já têm metástases. Além disso, 50% dos doentes diagnosticados acabam por desenvolvê-las mais cedo ou mais tarde. Estas são muito mais difíceis de tratar e mais resistentes aos tratamentos convencionais, além de afetarem órgãos vitais. De facto, 90% das mortes por cancro colorretal resultam de metástases.» – Angélica Figueroa
Porque é que as metástases ocorrem?
«Apesar da sua importância clínica, sabemos menos sobre as metástases do que sobre o tumor primário. Estas ocorrem quando algumas células tumorais adquirem a capacidade de invadir os tecidos e viajar através do sangue para outros órgãos, onde conseguem estabelecer-se e formar novos tumores. No entanto, apenas uma pequena fração destas células sobrevive e consegue metastizar. Estamos atualmente num ponto em que podemos começar a desenvolver estratégias para as prevenir ou combater mais eficazmente. Este é, sem dúvida, o maior desafio na investigação do cancro do cólon.» – Eduard Batlle

Eduard Batlle.
«O nosso grupo de investigação tem-se concentrado em compreender a biologia destas células metastáticas e os fatores-chave para a sua disseminação. Descobrimos que o seu comportamento é diferente do do tumor primário: possuem uma grande capacidade plástica que lhes permite migrar e adaptar-se a diferentes órgãos. Uma descoberta crucial neste processo foi a da proteína Hakai, que parece desempenhar um papel fundamental nesta plasticidade.» – Angélica Figueroa
«Graças ao financiamento da Fundação ”la Caixa”, estamos a desenvolver novos compostos destinados a bloquear a proteína Hakai e, assim, a travar as metástases. Estamos atualmente a trabalhar na otimização destes compostos para utilização em seres humanos, esperando que nos próximos anos entrem na fase de regulamentação e, posteriormente, em ensaios clínicos. Trata-se de projetos complexos e arriscados, mas essenciais, uma vez que não dispomos atualmente de tratamentos específicos para as metástases.» – Angélica Figueroa.
Que tratamentos existem para as metástases?
«O primeiro passo no tratamento das metástases é uma compreensão profunda da biologia do tumor. A identificação das mutações e das características de cada caso permite selecionar os tratamentos mais eficazes e evitar aqueles que não oferecem qualquer benefício e apenas acrescentam toxicidade desnecessária. Esta estratégia, conhecida como medicina de precisão, é já uma realidade no nosso sistema de saúde e combina quimioterapia – que continua a ser essencial na maioria dos casos – com terapias direcionadas, como os anticorpos monoclonais.» – Elena Élez
«Na nossa investigação, identificámos uma alteração molecular específica presente em 5% dos doentes com cancro colorretal metastático: a instabilidade de microssatélites. Estes tumores têm uma elevada taxa de mutações que geram proteínas que o sistema imunitário deteta como estranhas, o que facilita a utilização da imunoterapia. Os nossos estudos demonstraram que a combinação da imunoterapia com outros medicamentos é mais eficaz do que a quimioterapia como primeira linha de tratamento nestes casos.» – Elena Élez
«No entanto, observámos que os doentes com metástases hepáticas respondem pior à imunoterapia. Ainda temos de perceber porque é que isto acontece e desenvolver estratégias terapêuticas para ajudar a ultrapassar esta resistência. A colaboração entre diferentes grupos de investigação é fundamental para o progresso neste domínio.» – Elena Élez
«A biópsia de tecidos, um procedimento invasivo e doloroso, tem sido tradicionalmente utilizada para determinar quais os doentes que responderão melhor a que tratamentos. Por isso, estamos a explorar métodos alternativos que nos permitam estudar o tumor e a sua evolução de uma forma menos agressiva. Desenvolvemos um sistema inovador de análise de amostras. Utilizando uma biópsia líquida, extraímos células tumorais circulantes do sangue e implantamo-las num microchip, conhecido como organ-on-chip, que reproduz fielmente as caraterísticas do tumor. Este dispositivo fornece-nos um modelo in vivo, permitindo uma monitorização mais precisa da doença e facilitando a previsão da sua evolução. Graças a isto, podemos ajustar o tratamento de uma forma personalizada à medida que a doença progride.» – Elena Élez
Prevenção do cancro colorretal
Que comportamentos podemos adotar para prevenir o cancro do cólon?
«O fator mais importante para melhorar o prognóstico desta doença é a prevenção. Para tal, é essencial adotar hábitos de vida saudáveis, como uma alimentação equilibrada que forneça todos os nutrientes necessários e a prática regular de uma atividade física moderada.» – Elena Élez
O stress está relacionado com o cancro do cólon?
«Embora não tenha sido demonstrado que o stress em si promova o desenvolvimento do cancro do cólon, os fatores acima mencionados estão intimamente ligados. Uma pessoa sujeita a stress crónico ou emocional pode alterar a sua alimentação e o seu nível de atividade física, o que pode desencadear processos inflamatórios e facilitar o desenvolvimento do cancro colorretal. Tudo isto está relacionado com o microbioma, um sistema complexo que varia de indivíduo para indivíduo e que se altera ao longo da vida. Para prevenir o cancro do cólon e as suas consequências, as mensagens-chave são: adoção de hábitos de vida saudáveis e diagnóstico precoce.» – Elena Élez
