Quarta-feira 25

Cancro. Um nome, muitas doenças. Perguntamos ao especialista

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Todos os avanços começam com uma pergunta. Os médicos da Grécia Antiga interrogavam-se sobre o que seria o tecido anormal que crescia sem controlo e afetava a saúde dos seus doentes. Chamaram-lhe karkinos, caranguejo, por ser duro e semelhante a este animal. Deste termo deriva a palavra que continuamos a utilizar atualmente.

Dois mil e quatrocentos anos depois, sabemos que existem mais de 200 tipos de cancro. O cancro não é uma única doença, mas sim muitas, e requer que sejam feitas muitas perguntas. Neste artigo, reunimos algumas das dúvidas que nos foram enviadas pela nossa comunidade e abordamo-las juntamente com duas especialistas em clínica e investigação.

Elisa Espinet, investigadora Health Research da Fundação ”la Caixa” e líder de grupo do Laboratório de Cancro Pancreático da Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona e do Instituto de Investigación Biomédica de Bellvitge (IDIBELL), e Irene Braña, bolseira da Fundação ”la Caixa”, oncologista médica do Hospital Universitário Vall d’Hebron, chefe do Grupo de Cancro da Cabeça e Pescoço do Vall d’Hebron Instituto de Oncologia (VHIO) e investigadora da Unidade de Investigação em Terapia Molecular do Cancro (UITM)-CaixaResearch, também do VHIO, ajudam-nos a compreender melhor o contexto de uma realidade complexa que nos afeta a todos. 

Vamos a isso!

Nem todos os tumores são iguais, e nem todos os doentes respondem da mesma maneira. Por que razão é importante compreendermos a diversidade do cancro?

ELISA: Assim como as células da nossa pele não são iguais às células dos nossos olhos, os tumores com origem em diferentes órgãos também são diferentes entre si. Por exemplo, um melanoma cutâneo não é igual a um melanoma uveal (ocular) e, portanto, requerem tratamentos diferentes, da mesma forma que não usamos o mesmo creme para a pele e para os olhos. Mesmo dentro do mesmo órgão, existem diferentes tipos de células, e cada uma pode dar origem a tumores com características diferentes. Compreender isto é fundamental para avançarmos em direção a uma medicina cada vez mais personalizada.

Elisa Espinet, investigadora Health Research da Fundação ”la Caixa” e líder de grupo do Laboratório de Cancro Pancreático da Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona e do Instituto de Investigación Biomédica de Bellvitge (IDIBELL).

E a genética? Que papel desempenha no desenvolvimento do cancro e de que forma se combina com outros fatores de risco (sociais, ambientais, etc.)? 

IRENE: A genética desempenha um papel importante, mas devemos distinguir entre predisposição hereditária e alterações genéticas adquiridas. Apenas cerca de 5 a 10% dos cancros se devem a mutações herdadas dos nossos pais, como o BRCA1/2 e a síndrome de Lynch. A maioria dos cancros, no entanto, é causada por alterações genéticas que as células vão acumulando ao longo da vida, influenciadas por fatores como tabaco, álcool, dieta, obesidade, infeções e exposição ao meio ambiente. O cancro é, geralmente, o resultado da interação entre a nossa biologia e o ambiente em que vivemos. 

É verdade que se está a observar uma diminuição da idade em que aparecem alguns tipos de cancro? Porquê?

IRENE: Sim, nos últimos anos, temos vindo a observar um aumento de alguns tipos de cancro em pessoas com menos de 50 anos, especialmente cancro colorretal, da mama e do endométrio. Não existe uma causa única clara, mas provavelmente têm influência fatores como aqueles que mencionei antes, relacionados com mudanças no estilo de vida: aumento da obesidade, alterações metabólicas e possíveis fatores ambientais. Também poderão contribuir para este aumento uma maior sensibilização por parte das pessoas e uma maior capacidade de diagnóstico, pois permitem que sejam detetados mais cedo, embora isso não explique completamente esta tendência. É um fenómeno que estamos a estudar intensamente, porque tem implicações importantes na prevenção e nas estratégias de rastreio.

Irene Braña, bolseira da Fundação ”la Caixa” e líder de grupo de Cancro da Cabeça e do Pescoço da Unidad de Investigación de Terapia Molécular (UITM)-Caixa Research, do Vall d’Hebron Instituto de Oncología (VHIO).

Em média, quanto tempo decorre entre o início de um processo tumoral e a altura em que um cancro pode ser detetado? De que forma varia entre diferentes tipos de tumor?

ELISA: As células do nosso corpo sofrem mutações (erros no ADN) continuamente, como disse a Irene. Na maioria dos casos, os erros são corrigidos ou as células danificadas desaparecem. No entanto, quando alguns desses erros ficam fixados no ADN e se acumulam ao longo do tempo, pode iniciar-se um processo tumoral. Para que isso aconteça, são necessários vários anos, até décadas, embora dependa do tecido em que o fenómeno ocorre. A deteção também depende muito do tipo de cancro. Tumores que aparecem em locais mais visíveis (mama, pele/melanoma) podem ser detetados mais facilmente, por estarem “à vista”. Outros, como o cancro do pâncreas, demoram mais tempo a ser detetados, porque o órgão não é visível e os sintomas são pouco específicos.

Falando em diversidade no cancro… também há pessoas que desenvolvem metástases e outras não. Porque é que isso acontece?

ELISA: Pouco sabemos ainda. Estamos a começar a compreender que a forma como ao tumor interage com o seu ambiente e a sua capacidade de se deslocar e sobreviver fora do órgão de origem são o que permite que as suas células possam viajar para outros órgãos e acabem por iniciar uma lesão nesses órgãos. Portanto, compreender as características específicas de cada tumor é importante, porque isso vai ajudar-nos a prever quais são os doentes com maior probabilidade de desenvolver metástases e a desenvolver terapias que possam retardar ou, inclusivamente, impedir o seu aparecimento.  

E por que razão algumas pessoas têm recidivas? 

IRENE: Porque, apesar do tratamento inicial, poderão permanecer células tumorais microscópicas que não são detetadas e que, com o tempo, voltam a crescer. A biologia do tumor também tem influência, como disse a Elisa, isto é, o tamanho e a extensão do cancro no momento do diagnóstico (o que chamamos de «estágio»). Alguns são mais agressivos ou desenvolvem mecanismos de resistência aos tratamentos. 

Claro, a altura em que é feito o diagnóstico também é importante. Existe algum indicador comum a todos os cancros que nos possa alertar para a sua presença antes do aparecimento dos sintomas? 

ELISA: Não, atualmente não existe nenhum indicador comum, nem nenhum biomarcador universal para todos os tipos de cancro antes do aparecimento dos sintomas. Um dos marcadores mais estudados na biópsia líquida é a deteção de ADN tumoral (se não houver tumor, não haverá fonte de ADN tumoral e, portanto, não haverá presença na circulação sanguínea). No entanto, e voltando à diversidade de que temos estado a falar, os níveis de ADN tumoral circulante podem variar muito entre diferentes tipos de cancro e também entre doentes com o mesmo tipo de tumor. Resolver estas questões é um dos grandes desafios atuais para avançarmos para uma deteção mais precoce e precisa.

Em que consiste exatamente a biópsia líquida? E que tipos de cancro podem ser diagnosticados atualmente através desta técnica? 

ELISA: Consiste em encontrar, normalmente numa amostra de sangue, moléculas que, em condições normais, não deveriam estar presentes no sangue. Mais concretamente, material genético, ADN ou ARN tumoral. Além disso, a quantidade específica destas moléculas, destes biomarcadores, pode fornecer informações sobre a evolução da doença: se aumentar, poderá indicar que a doença está a progredir; enquanto, se diminuir (por exemplo, durante o tratamento), poderá indicar que o tumor está a responder bem. Em estágios em que a doença está mais avançada, como nos casos em que há metástases, poderá haver uma maior presença destes marcadores tumorais no sangue e, portanto, a deteção e a utilização desta técnica podem ser mais precisas. A biópsia líquida está a ser utilizada no cancro da mama metastático, no cancro do pulmão de pequenas células e no cancro do cólon, mas é importante ter em conta que a presença de biomarcadores depende do tipo de tumor e do doente, e ainda não sabemos suficientemente bem de que forma é regulada. 

A quimioterapia e a radioterapia são os tratamentos mais conhecidos. Que outros tratamentos se mostraram eficazes em determinados tipos de cancro? 

IRENE: O tratamento do cancro depende do tipo e do estágio, mas sim, continuamos a utilizar cirurgia, quimioterapia e radioterapia como pilares fundamentais. No entanto, na última década, as terapias direcionadas e a imunoterapia, que atuam sobre alterações específicas do tumor ou fortalecem o sistema imunitário do doente, passaram a desempenhar um papel de destaque. Também contamos com hormonoterapia em determinados tumores e terapias celulares em contextos específicos, como as terapias CAR-T em tumores hematológicos.

O sistema imunitário é fundamental no desenvolvimento do cancro. E há tumores que se escondem dele. Como podemos eliminá-los? 

ELISA: Existem vários mecanismos que o tumor utiliza para não ser visto e/ou atacado pelo sistema imunitário, pelo que existem diferentes estratégias em função disso. Por exemplo, quando as células tumorais se protegem produzindo moléculas que inibem a ação do sistema imunitário, podemos utilizar medicamentos que “desligam” ou bloqueiam esses sinais, que é o que se faz com as terapias anti-PD-1 e anti-PD-L1. Ou, quando o sistema imunitário está “adormecido”, podemos obter células imunitárias do próprio doente, modificá-las em laboratório, tornando-as supereficientes no reconhecimento do tumor, e depois devolvê-las ao organismo. É o que se conhece como terapia CAR-T. Outra forma de “acordar” o sistema imunitário poderá ser através da utilização de vacinas tumorais personalizadas. Existem muitos estudos relacionados com novas ferramentas para desmascarar as células tumorais.  

Atualmente, podemos falar de cura completa para algum tipo de cancro? Qual?

IRENE: Sim, felizmente existem tumores com taxas de cura muito altas, especialmente quando são diagnosticados em estágios iniciais. Alguns exemplos são o cancro testicular, determinados linfomas e muitos cancros da mama, do cólon e da cabeça e pescoço detetados precocemente. Noutros casos, falamos mais de cronicidade, uma vez que alguns doentes podem viver muitos anos com a doença controlada, graças a terapias inovadoras. É sempre importante individualizar o prognóstico e transmitir informação realista, mas também esperançosa. Hoje, mais do que nunca, o diagnóstico de cancro não é sinónimo de falta de opções.

Além de tudo isto, conviver com a doença, mesmo depois de a ter superado, não é fácil. Como se pode reduzir o impacto das sequelas físicas, psicológicas e sociais, e favorecer a reintegração dos doentes na vida quotidiana e profissional?

IRENE: O tratamento do cancro não termina quando o doente finaliza o tratamento. É fundamental trabalhar a reabilitação física, o apoio psicológico e o acompanhamento social e profissional. Muitas pessoas podem sentir cansaço, falta de concentração, ansiedade, medo da recidiva ou dificuldades em regressar ao trabalho. Por isso, é fundamental uma abordagem multidisciplinar que inclua oncologistas, psicólogos, fisioterapeutas e assistentes sociais. O nosso objetivo não é apenas aumentar a sobrevivência, é também preservar a qualidade de vida e permitir que as pessoas recuperem o seu projeto de vida com o maior bem-estar possível.

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