Quinta-feira 11

A saúde do sono

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Existe a falsa crença de que dormir mal é uma consequência inevitável do envelhecimento ou de etapas da vida como a gravidez e a perimenopausa, bem como de que podemos reduzir as horas de descanso para ganhar produtividade, muitas vezes sem nos apercebermos de que a privação crónica de sono compromete a nossa saúde.

Dormir bem não é apenas descansar, é uma necessidade básica e essencial que protege o nosso cérebro. Através do olhar especializado da Dra. Ana Fernández Arcos, neurologista e investigadora do Barcelonaβeta Brain Research Center (BBRC), vamos explorar a razão pela qual uma boa qualidade do sono pode funcionar como uma barreira contra o declínio cognitivo e a doença de Alzheimer

 

Dormir: um processo ativo de autocuidado

Longe de ser um estado passivo, o sono é fundamental para restabelecer as funções vitais. «Trata-se de um processo ativo no qual são reguladas e otimizadas múltiplas funções do organismo. Quando estamos a dormir, o cérebro reduz o consumo de oxigénio e glicose, regula o sistema imunitário e ativa o sistema glinfático, responsável pela eliminação de resíduos metabólicos do cérebro», explica a neurologista.

Além disso, o sono é essencial para o desempenho cognitivo, pois permite a «consolidação da memória, a manutenção do rendimento e uma regulação emocional adequada», explica-nos Ana. No entanto, não basta dormir, é preciso fazê-lo com qualidade: dormir o tempo suficiente, de forma regular e sem interrupções longas. Um bom indicador é «sentir que descansámos, quando acordamos, e mantermo-nos ativos durante o dia sem necessidade de estimulantes».

As perturbações do sono, porém, podem passar despercebidas e ter um impacto a longo prazo na saúde. «A apneia obstrutiva do sono pode passar despercebida em pessoas que dormem sozinhas», adverte a neurologista. Por isso, salienta que quando surgem problemas é fundamental complementar a perceção subjetiva com avaliações clínicas objetivas como a actigrafia e a polissonografia, que permitem analisar fases críticas como o sono de ondas lentas, também conhecido como sono profundo.

 

O papel do sono no declínio cognitivo e na neurodegeneração

É fundamental distinguir as alterações próprias do envelhecimento normal das alterações patológicas. Conforme explica Ana, enquanto a idade pode trazer uma menor agilidade mental que não interfere no dia a dia, o declínio cognitivo real é persistente e progressivo. Neste processo, o sono é determinante: a curto prazo, a sua falta afeta a atenção e a memória de trabalho; a longo prazo, o sono insuficiente e o sono prolongado estão associados a alterações estruturais no cérebro e a um futuro declínio cognitivo. Além disso, a investigadora salienta que a má qualidade do sono está associada a uma maior acumulação da proteína beta-amiloide, uma das características distintivas da doença de Alzheimer.

A investigação liderada pelo Dr. Oriol Grau no BBRC demonstrou que nem todos temos o mesmo grau de vulnerabilidade. Ana Fernández Arcos explica que «as mulheres parecem ser mais suscetíveis às consequências de um sono de má qualidade», uma vez que apresentam efeitos mais acentuados do sono fragmentado na estrutura cerebral e um maior impacto cognitivo da insónia e da apneia do sono. A especialista acrescenta que a idade também dita regras específicas: enquanto, entre os 50 e os 64 anos, o risco está associado a durações extremas (menos de 7 horas ou mais de 9), a partir dos 65 anos há mais evidências de uma associação entre o sono prolongado e o declínio cognitivo.

A relação entre as perturbações do sono e a doença de Alzheimer é, nas palavras da neurologista, «bidirecional»: as perturbações do sono atuam como fatores de risco neurodegenerativo e, por sua vez, a própria doença altera a qualidade do sono. Quando o sistema glinfático, mais ativo durante o sono de ondas lentas, deixa de funcionar corretamente, a acumulação das proteínas beta-amiloides e tau, que são prejudiciais, fica favorecida. Por último, a médica alerta para o facto de estas alterações poderem surgir mesmo antes dos sintomas clínicos, funcionando, assim, como indicadores precoces. Por essa razão, defende uma intervenção antecipada: «Deveria ser feito um rastreio da apneia em todas as avaliações iniciais».

Ana Fernández Arcos

 

Investigar para um futuro mais saudável

A investigação de Ana visa compreender como o sono pode funcionar como um biomarcador precoce, ao permitir identificar alterações antes do aparecimento dos primeiros sintomas da doença. Para isso, utiliza uma abordagem que combina a perceção do doente com medidas objetivas, como a actigrafia, o estudo da apneia e a polissonografia. «Dedicamo-nos especialmente ao estudo do sono como fator de risco para as doenças neurodegenerativas», explica a neurologista, que esclarece que analisam variáveis fundamentais como a duração do sono, a sua fragmentação e a proporção de sono de ondas lentas.

Neste percurso de investigação, a coorte ALFA do BBRC tem sido fundamental. Trata-se de um grupo de 500 pessoas saudáveis descendentes de doentes com Alzheimer, que participam num estudo financiado pela Fundação ”la Caixa” dedicado à deteção precoce de biomarcadores da doença. Esta coorte permite estudar de forma longitudinal as alterações no sono durante o envelhecimento, especialmente nas fases pré-clínicas da doença de Alzheimer. «Graças a estes dados, pudemos constatar que a insónia está associada a alterações estruturais no cérebro detetadas por ressonância magnética», salienta a médica. E conclui que «a participação dos voluntários permite analisar o sono como um potencial indicador precoce para detetar alterações cerebrais», o que abre caminho a estratégias preventivas eficazes.

 

Um novo pilar da saúde

O sono está destinado a ocupar um lugar central na medicina preventiva. A neurologista e investigadora prevê uma mudança de paradigma: «Provavelmente, irá consolidar-se como um pilar fundamental da saúde, ao mesmo nível da alimentação e do exercício físico. «Vamos avançar para uma abordagem mais preventiva, na qual o sono será uma ferramenta para otimizar a saúde cerebral e reduzir o risco de doenças.» 

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