Instantâneo do mês: “Padrões secretos do Ser”
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O que têm em comum uma micrografia celular e um tapete persa? À primeira vista, ambos são geometrias que captam um tecido, uma trama de padrões cromáticos.
Nesta edição do Instantâneo do mês, vamos descobrir como esta comparação se articula através da simbologia do cinema e o que é que efetivamente revela o estudo a que a imagem pertence. Veremos que, por trás da sua aparente quietude, se esconde uma “batalha” celular digna de um guião cinematográfico, com os seus heróis e vilões e um ritmo narrativo que determina tudo. As protagonistas são as células senescentes, verdadeiras células “zombies” que deixam de se dividir, mas não morrem. Num ambiente tumoral, este fenómeno é uma faca de dois gumes. No início, é benéfico, pois atua como um travão da divisão de células danificadas que alimentariam o tumor, mas, a longo prazo, as células zombies acumulam-se e libertam substâncias inflamatórias que acabam por criar as condições que favorecem o crescimento do tumor. Há, no entanto, outros fatores envolvidos no desenvolvimento deste tumor, tal como revela um novo estudo. Com isto, a reviravolta no enredo está definida.
Para analisar este instantâneo do estudo realizado no Vall d’Hebron Instituto de Oncología (VHIO) e no Hospital del Mar Research Institute (HMRIB), e publicado na Science Advances, vamos juntar duas perspetivas. Por um lado, contamos com a perspetiva científica dos investigadores do estudo em questão, membros do grupo de investigação de Redirecionamento Imunitário do HMRIB: Joaquín Arribas, líder do grupo, diretor do Instituto e investigador Health Research; Pau Garcia Baucells, membro da comunidade de bolseiros da Fundação ”la Caixa” e doutorando em Imunoterapia Oncológica; e Marta Lalinde, investigadora de pós-doutoramento com dupla afiliação ao VHIO e ao HMRIB, e primeira autora do artigo. Por outro lado, contamos com a visão artística da cineasta Andrea Nouga Feliu, que frequenta atualmente um mestrado em Produção e Realização Cinematográfica na London Film School, graças a uma bolsa de pós-graduação no estrangeiro da Fundação ”la Caixa”.
Vamos começar por ela.
Andrea, que referências cinematográficas esta imagem lhe faz lembrar?
Andrea (A): A intensidade cromática da imagem, bem como a sua organização em padrões densos, aproximam-na inesperadamente de certas tradições visuais iranianas contemporâneas, nas quais a cor, a repetição e a abstração funcionam como veículos de significado. A imagem remete para o filme Gabbeh (1996), de Mohsen Makhmalbaf, pelo uso de cores saturadas que emergem da escuridão.

Andrea Nouga Feliu
Lembro-me da forma como o filme retrata as emoções humanas e a trajetória do indivíduo no seu contexto social através da intensidade das cores e dos seus diferentes tons. A narrativa tem origem num tapete feito por nómadas (gabbeh), cujas cores e motivos repetitivos contêm histórias de amor, memória e desejo, e se transformam numa linguagem visual. De uma forma semelhante, a micrografia mostra uma superfície vibrante onde as células tingidas de azul, vermelho e amarelo se organizam como um tapete microscópico que, embora não apresente uma narrativa intencional, convida à leitura.

Fotograma de Gabbeh (1996), realizado por Mohsen Makhmalbaf. Coprodução e distribuição por © MK2 Diffusion / Fonte: BAM (Brooklyn Academy of Music)

Fotograma de Gabbeh (1996), realizado por Mohsen Makhmalbaf. Coprodução e distribuição por © MK2 Diffusion / Fonte: IMDb
Penso também na realizadora iraniana Shirin Neshat e nos seus trabalhos de cinema experimental, por exemplo, em Logic of the Birds, uma obra em que as multidões em movimento evocam uma busca espiritual coletiva e a individualidade se dilui numa experiência comum. A imagem sugere algo semelhante: uma multiplicidade de unidades que, ao agruparem-se, criam uma forma coerente e quase dinâmica. Cada célula pode ser entendida como um “viajante” dentro de um sistema mais vasto que contribui para uma totalidade que transcende as suas partes.

Fotograma da obra artística Logic of the Birds (2002), de Ghasem Ebrahimian, Shirin Neshat, Shoja Azari, Sussan Deyhim / Fonte: artangel.org.uk
O que lhe transmite esta imagem?
A: Depois de me deixar inebriar pela vivacidade das cores, apetece-me concentrar-me no oposto, na escuridão que serve de suporte e, ao mesmo tempo, é a única coisa que torna possível a existência destas cores. Se tivesse de lhe dar um título, seria Padrões secretos do Ser.
Joaquín, do ponto de vista científico, o que podemos ver nesta imagem?
Joaquín (J): Trata-se de uma imunofluorescência que revela as células senescentes ou células zombies num dos tumores de ratinho em fase inicial.

Joaquín Arribas
E qual é a importância do papel destas células no ambiente tumoral?
J: Descobrimos que as células senescentes desempenham um papel determinante na progressão do tumor. Estas células influenciam a presença e o comportamento de certos macrófagos (células do sistema imunitário que eliminam agentes patogénicos e células danificadas) através de uma molécula chamada CCL2 (uma citocina produzida pelos próprios macrófagos, que “recruta” mais macrófagos), o que, por sua vez, pode alterar a evolução do tumor.
Marta, o que mais descobriram? De que forma é que estas células senescentes influenciam exatamente a evolução do tumor?
Marta: Continuava por esclarecer se as células senescentes ajudam a travar o cancro ou, pelo contrário, favorecem o seu crescimento e, por conseguinte, se a sua eliminação (por exemplo, através de fármacos senolíticos) é ou não recomendável.
Para responder a esta pergunta, desenvolvemos um modelo de rato transgénico que permite eliminar estas células em diferentes fases da doença e verificámos que o momento é fundamental. Se forem removidas demasiado cedo, o tumor pode tornar-se mais agressivo. No entanto, ao combinar a sua eliminação com o bloqueio da molécula CCL2, este efeito negativo pode ser evitado.
Ou seja, não se trata apenas de saber se a eliminação das células senescentes retarda ou acelera o cancro, mas sim de como e quando devem ser eliminadas. Nas fases iniciais, a eliminação das células senescentes sem bloquear a CCL2 leva a uma atração exacerbada de macrófagos, que, por sua vez, libertam mais CCL2 e criam um círculo vicioso de inflamação. Este processo não permite a intervenção dos linfócitos T, que deveriam atacar o tumor, facilitando, assim, o seu crescimento livre e mais agressivo.

Marta Lalinde
Pau, que impacto acha que esta descoberta terá na sociedade?
Pau: Penso que o seu principal impacto é melhorar a nossa compreensão de como um tumor funciona à escala celular. Compreender melhor a relação entre as células senescentes, a inflamação e o sistema imunitário é importante porque nos ajuda a perceber por que razão os tumores evoluem de formas diferentes e abre caminho para estratégias terapêuticas mais precisas no futuro. Trata-se de um avanço no conhecimento de base, mas com uma clara projeção biomédica.

Pau Garcia Baucells
Terminamos com uma última reflexão. Andrea, que relação acha que existe entre a ciência e a arte?
Ambas têm origem em duas qualidades humanas: a imaginação e a criatividade. A ligação entre a ciência e a arte não é apenas estética. Também aponta para uma relação mais profunda, uma vez que nós, seres humanos, somos criaturas sensoriais que observamos o mundo antes de o compreender.
A ciência parte da mesma base sensorial que a arte para identificar, traduzir e interpretar o que é observado, construindo, assim, modelos que tornam a realidade compreensível. Nesse sentido, a micrografia não é apenas um registo técnico. É também o resultado de um olhar que seleciona, ilumina e enquadra, ou seja, que já contém uma dimensão criativa.
Enquadramento de uma “batalha” celular
Para além do impacto visual desta micrografia, o que este estudo coloca em evidência é uma questão de estratégia e precisão. A descoberta do grupo de investigação demonstra que, na luta contra o cancro, nem sempre basta atacar o inimigo. É fundamental compreender como e quando o fazer.
