A era da inflamação
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Água com limão; shots de gengibre, curcuma e canela; dieta mediterrânica com matcha e kombucha; boa higiene do sono e exercício diário; jejum intermitente; banhos de gelo; até mesmo dispositivos de luz vermelha e passeios descalço (grounding) para se reconectar com a terra.
Estas são apenas algumas estratégias anti-inflamatórias de uma longa lista que parece crescer todos os dias. Estas estratégias prometem afastar-nos tanto das doenças cardiovasculares, da diabetes e do cancro, como de sintomas do dia a dia como o cansaço, o stress e o mal-estar geral. Na verdade, nos últimos anos, a inflamação saiu do laboratório para se tornar um dos conceitos mais recorrentes, e talvez mais promissores, abordados nos debates públicos sobre saúde.
Mas o que sabemos efetivamente sobre a inflamação? E, acima de tudo, o que significa realmente dizer que algo é “anti-inflamatório”? Que evidências científicas sustentam estas técnicas? Conversámos com Manuela Ferreira, investigadora especializada no impacto da alimentação no sistema imunitário, para compreender em que ponto se encontra a investigação científica, que mitos circulam por aí e como este conceito está a transformar tanto a investigação como a perceção que a sociedade tem da saúde.
Uma definição histórica
A palavra “inflamação” deriva do verbo latino inflammare, que significa “incendiar”. «A própria palavra é bastante ilustrativa», explica Manuela Ferreira, «uma vez que a inflamação costuma manifestar-se como calor, vermelhidão, inchaço e dor, quase como se o tecido estivesse a arder.»
No entanto, para além dos seus sintomas, a inflamação é, essencialmente, uma resposta de defesa. «É ativada quando o organismo deteta um perigo: uma infeção, uma lesão ou a presença de células que devem ser controladas ou eliminadas pelo sistema imunitário», salienta Manuela.

Manuela Ferreira
Dependendo da sua duração, existem dois tipos de resposta: a inflamação aguda e a inflamação crónica. «A primeira é uma resposta rápida e autolimitada», explica a investigadora. É provocada por feridas, aftas, infeções, etc. «Surge em questão de minutos ou horas após a deteção do perigo e, assim que o problema é resolvido, desaparece progressivamente.»
«A inflamação crónica é diferente», adverte Manuela. «Em alguns casos, pode ser quase silenciosa, como acontece em certos contextos metabólicos (obesidade ou diabetes) ou cardiovasculares, onde existe um estado persistente e de baixa intensidade, que pode manter-se durante anos sem apresentar sintomas evidentes, mas que, com o tempo, acaba por danificar os tecidos e provocar doenças. Noutras situações, contudo, a inflamação crónica é muito sintomática e afeta claramente o dia a dia, como acontece nas doenças inflamatórias intestinais, incluindo a doença de Crohn e a colite ulcerosa. Além disso, em alguns contextos, a inflamação crónica também pode favorecer o desenvolvimento ou a progressão de certos tipos de cancro.»
Num contexto contemporâneo
A nutrição é provavelmente uma das áreas em que o uso do conceito de “inflamação” ganhou mais força, embora isso nem sempre tenha sido acompanhado pela evolução do conhecimento que se tem dela sob o ponto de vista da biologia. E faz sentido: a alimentação é uma das formas mais diretas de o ambiente interagir com a nossa biologia e influenciar a nossa saúde.
«O escorbuto é um claro exemplo deste fenómeno», explica Manuela. «Durante as antigas expedições marítimas, os marinheiros desenvolviam esta grave doença causada pela falta de vitamina C. Embora já se tivesse observado que os citrinos podiam preveni-la e tratá-la, esta explicação nutricional foi ignorada durante séculos.»
Mais do que questionar se determinados alimentos “inflamam” ou “desinflamam” de forma direta, a investigação atual aponta para uma questão mais complexa. No seu laboratório, a equipa de Manuela Ferreira está a estudar um caso específico deste processo: o papel dos nutrientes no desenvolvimento das defesas intestinais durante a infância.

Amostra de tecido intestinal preservada num tubo de ensaio.
«Mais concretamente, observámos que estas células precisam de “ler” sinais derivados da vitamina A, como o ácido retinoico, para se desenvolverem corretamente e desempenharem a sua função», explica. «Se estes sinais não forem detetados, as células imunitárias não conseguem estabelecer-se adequadamente no intestino e, como consequência, este tecido pode ficar menos preparado para controlar as infeções de forma eficiente.»
Na boca de toda a gente
Segundo Manuela Ferreira, este auge do termo tem duas origens complementares: por um lado, o aumento do conhecimento científico sobre a importância da imunologia no organismo e, por outro, o poder da inflamação como imagem popular.
«É um processo de grande importância biológica; o risco é que a palavra se torne tão útil que comece a ser utilizada como um rótulo genérico para qualquer mal-estar ou desequilíbrio», adverte. «E, a partir daí, como algo que parece ter uma solução rápida ou até mesmo comercial.» Dessa simplificação nasceram alguns dos mitos mais difundidos neste domínio:
- “A inflamação é sempre prejudicial e deve ser eliminada.” «A inflamação é essencial para a vida», recorda Manuela. «Permite-nos combater infeções, reparar tecidos e responder a situações de lesão. O problema não é a sua existência, mas sim a sua persistência ou a sua ativação no contexto errado.»
- “Qualquer sintoma é um sinal direto de inflamação.” «Sintomas como o cansaço, os problemas digestivos e as irritações cutâneas podem estar associados a processos inflamatórios, mas nem sempre, e nem do mesmo modo. Do ponto de vista científico, é fundamental compreender o tecido envolvido, o fator desencadeador e a duração do processo.»
- “A inflamação pode ser tratada com soluções únicas.” «Não existe nenhum alimento (ou superalimento), suplemento ou substância “detox” que, por si só, a elimine», afirma. «A alimentação tem influência. Mas o importante é o conjunto, não os ingredientes isoladamente.»
Para a investigadora, este é o principal desafio da chamada “era da inflamação” em que vivemos: preservar o valor de um conceito que transformou a nossa compreensão da saúde sem o transformar numa explicação universal para qualquer mal-estar.
Para além do rótulo
Se, daqui a dez anos, continuarmos a falar sobre a inflamação, Manuela espera que seja devido a uma melhor compreensão do fenómeno e não a uma maior preocupação com o mesmo. «Gostaria que avançássemos para uma fase em que compreendêssemos mais profundamente como a alimentação, o sono, o exercício físico, o stress, as infeções, a poluição ou as condições sociais moldam o nosso sistema imunitário», explica.
Numa altura em que as redes sociais e a inteligência artificial podem oferecer explicações imediatas para fenómenos complexos, a investigadora considera que «isto pode ter efeitos muito positivos, porque aproxima a ciência de mais pessoas, mas também pode favorecer uma compreensão superficial de fenómenos complexos. É por isso que é importante preservar o pensamento crítico: nem todas as explicações rápidas são boas explicações, nem todas as soluções imediatas são soluções reais.»
«Precisamos de interrogações melhores, interpretações rigorosas e de uma investigação capaz de aprofundar os mecanismos subjacentes aos processos biológicos. A inflamação é um bom exemplo disso.»
