Terça-feira 29

Instantâneo do mês: «Fóssil lunar»

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Nesta edição, a ciência e a criação artística partilham a mesma viagem das sombras para a luz.

O instantâneo deste mês parece emergir de uma profunda penumbra que evoca a icónica fase dos noirs de Odilon Redon — obras a preto e branco caracterizadas por formas densas, difusas, oníricas e inquietantes —, antes da sua transição para a cor e para a luz. De igual modo, a imagem deste estudo científico começa na sombra das esferas tumorais para depois, através do impacto da luz azul, ativar um fotofármaco que atua sobre essas células resistentes e revela a verdadeira “obra científica”.

Para analisar este cruzamento de perspetivas entre a arte e a ciência deste estudo fotofarmacológico inovador, partimos de duas abordagens. Por um lado, contámos com a visão artística de Cristina Gómez Barrio, artista independente que realizou uma pós-graduação em Berlim, graças a uma bolsa da Fundação ”la Caixa”. Cristina é professora na Academia Estatal de Belas Artes de Estugarda (ABK Stuttgart) e cofundadora do coletivo Discoteca Flaming Star, de Berlim, onde trabalha desde 1998 com uma abordagem a que chama de «constelações coletivas», num «diálogo constante com outras artistas». Por outro lado, contámos com a perspetiva científica dos líderes do estudo publicado: Laia Josa Culleré, que fez a sua pós-graduação na Universidade de Cambridge, graças a uma bolsa da Fundação ”la Caixa”, e que atualmente é investigadora no Instituto de Química Avançada da Catalunha (IQAC-CSIC), onde dirige o grupo de Descoberta de Fármacos e Química Médica (DDMC), e Amadeu Llebaria, investigador da nossa rede e do IQAC, onde dirige o grupo de Química Médica e Síntese (MCS). 

Começámos pela artista.

Cristina Gómez Barrio / Autor: Wolfgang Mayer

 

Cristina, que obras artísticas lhe faz lembrar esta imagem?

Cristina (C): Poderia ser um fragmento de uma das litografias ou de um dos desenhos a carvão de Odilon Redon. Até ao final do século XIX, Redon produziu vários álbuns de litografias. A força, a densidade e a textura dos noirs… Esta imagem levou-me inevitavelmente a pensar neles. É impressionante a maneira como Redon foi capaz de analisar a textura do pó e expressar-se através dela, criando algo tão volátil, prestes a perder a forma, e, ao mesmo tempo, tão denso e profundo. As imagens parecem emergir da escuridão da noite e do sono. 

Aranha sorridente, obra de Odilon Redon (1881) / Fonte:  Musée d’Orsay 

O olho, como um estranho balão, eleva-se em direção ao infinito, obra da série Para Edgar Poe, de Odilon Redon (1882) / Fonte: Meisterdrucke Fine Art Prints

 

O que lhe sugere esta imagem?

C: Vejo algo que está ali presente, mas que não conseguimos ver. Como a luz escura irradiada por algo que existiu há muito tempo e que continua a emitir energia. Ou como uma marca na pele de algo que já deixou de existir. 

Se tivesse de lhe dar um nome, seria Fóssil lunar.

 

Prosseguimos com os investigadores. 

Laia, do ponto de vista científico, o que representam estes aglomerados?

Laia (L): A imagem mostra agrupamentos tridimensionais de células cancerosas, chamados esferas. Nestas condições, verifica-se um enriquecimento das células estaminais tumorais, uma população particularmente resistente aos tratamentos, o que nos permite estudar se as nossas moléculas são capazes de as eliminar.

 

Amadeu, que moléculas desenvolveram? 

Amadeu (A): Desenvolvemos umas moléculas que inibem um processo celular chamado autofagia, mas com uma característica muito especial: só se ativam quando são expostas à luz azul. Na ausência de luz, as moléculas permanecem inativas e, após alguns segundos de iluminação, adquirem a sua atividade antitumoral. Isto permite-nos controlar com grande precisão quando e onde atuam, limitando, assim, o seu efeito ao local pretendido. 

Além disso, demonstrámos que estas moléculas conseguem eliminar as células estaminais tumorais resistentes e que podem ser ativadas pela luz azul diretamente no interior de um tumor em modelos de rato. Apesar de a luz azul ser considerada pouco penetrante nos tecidos, confirmámos que é suficiente para ativar estas moléculas nestes ambientes tumorais. 

Da esquerda para a direita: Lourdes Muñoz, Laia Josa, Amadeu Llebaria e Carme Serra.

 

A que problema dá resposta a vossa descoberta e como é que o resolveram?

L: As células estaminais tumorais são, em muitos casos, responsáveis pela recidiva do cancro, porque resistem aos tratamentos convencionais e podem regenerar o tumor. No entanto, desenvolver medicamentos que as eliminem de forma seletiva é muito difícil, uma vez que partilham muitas características com as células estaminais saudáveis. Sabe-se que bloquear a autofagia pode acabar com estas células resistentes, mas os inibidores atuais também afetam os tecidos saudáveis e podem causar efeitos secundários. A nossa estratégia consiste em utilizar a luz para ativar o fármaco exclusivamente no tumor, de modo que a sua ação seja localizada e possa aumentar a eficácia do tratamento, reduzindo simultaneamente a sua toxicidade.

 

Que impacto acham que esta descoberta terá na sociedade?

L: Os nossos resultados sugerem uma nova estratégia para eliminar as células tumorais mais resistentes. No futuro, este tipo de tratamentos poderá ser combinado com a quimioterapia convencional para aumentar as hipóteses de eliminar completamente o tumor e reduzir o risco de recidiva. Não obstante, é importante salientar que se trata de uma investigação numa fase muito inicial e que ainda será necessário otimizar estas moléculas e estudar a sua eficácia e segurança antes de poderem ser aplicadas na prática clínica.

A: Além disso, este trabalho demonstra o enorme potencial da fotofarmacologia para controlar com precisão a ação dos medicamentos. No futuro, esta abordagem poderá dar origem a tratamentos mais seguros, seletivos e eficazes para doentes com diversas doenças e, em particular, com cancro.

Atualmente, estamos a aplicar esta mesma abordagem ao desenvolvimento de fármacos ativáveis pela luz, dirigidos a outros alvos terapêuticos do cancro. Estamos também a conceber novas moléculas que possam ser ativadas com luz verde e vermelha, cuja maior capacidade de penetração nos tecidos facilitaria a sua aplicação em tumores mais profundos.

 

Como é habitual, gostaríamos de saber de que forma a ciência e a arte, ou a criatividade, se entrelaçam, de acordo com os perfis artísticos da comunidade. Cristina, qual é, na sua opinião, a relação entre ciência e arte?

C: Penso que tanto a ciência como a arte procuram compreender onde estamos, o que nos rodeia, como nos relacionamos com todas essas formas de vida e existência à nossa volta…, o que nos trouxe até aqui. E ambas as disciplinas trabalham com imaginação e, ao mesmo tempo, com muito rigor. Mas talvez devêssemos distinguir entre criatividade e arte, uma vez que nem todas as formas de criatividade dão origem a arte. O mesmo se passa na investigação científica, em que nem tudo é ciência aplicada. 

 

 

Para além do fascínio visual que estas esferas celulares suscitam, o que este estudo revela é um avanço fundamental no controlo e na especificidade das terapias oncológicas. O trabalho da equipa demonstra que a fotofarmacologia não só permite atacar as células mais resistentes do tumor, bloqueando a autofagia, como também oferece a possibilidade de o fazer apenas quando e onde for necessário, através da utilização precisa da luz. 

Esta descoberta abre caminho para tratamentos mais eficazes e menos tóxicos no futuro da medicina de precisão.

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