Sexta-feira 17

Será que podemos evitar as próximas pandemias?

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Doença X

Esta foi a designação que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deu, em 2018, a uma patologia que, embora ainda não fosse conhecida (e talvez nem existisse), poderia causar uma epidemia ou pandemia grave no futuro.

Apenas dois anos depois, surgiu o que se pode considerar o primeiro exemplo dessa “doença X”: a COVID-19.

Desde então, a constante “enxurrada” de notícias sobre novos agentes patogénicos, alertas de saúde e surtos (gripe das aves, varíola dos macacos, ébola, hantavírus, etc.) voltou a alimentar o nosso medo face uma dúvida inevitável: «Estaremos à beira de uma nova pandemia?». E este medo é seguido de uma tentativa de pensamento tranquilizador: «Depois de tudo o que aprendemos com a COVID-19, de certeza que agora estamos mais bem preparados. Talvez até possamos evitá-la.»

Durante muito tempo, considerámos as pandemias como uma parte inevitável da nossa história. No entanto, a ciência dispõe hoje de ferramentas sem precedentes para antecipar, monitorizar e conter as doenças emergentes antes de estas se tornarem ameaças globais. A questão já não é apenas saber qual será a próxima pandemia e como a enfrentar, mas também até que ponto conseguiremos antecipá-la.

Com a colaboração de José Muñoz, investigador do Instituto de Salud Global de Barcelona (ISGlobal) e chefe do Serviço de Saúde Internacional do Hospital Clínic de Barcelona, e do bolseiro Gerardo Ceada, responsável pelo biobanco de zoorganoides do Instituto de Investigación y Tecnología Agroalimentaria (IRTA), iremos explorar como a ciência trabalha atualmente para detetar riscos emergentes e qual o papel desempenhado pela vigilância epidemiológica, pela investigação biomédica e pela abordagem One Health (Uma Só Saúde) na prevenção de futuras pandemias.

 

Mais do que uma suspeita

A sensação de que estão a surgir cada vez mais vírus novos não é infundada. «Nas últimas três décadas, aumentaram consideravelmente», explica José Muñoz. O vírus Zika, o MERS-CoV e a própria COVID-19 são alguns dos exemplos mais recentes.

Gerardo Ceada e a sua equipa no Zoorganoids

No entanto, este aumento tem duas vertentes. «Por um lado, hoje dispomos de melhores sistemas de vigilância epidemiológica e de diagnóstico que nos permitem detetar surtos que antes teriam passado despercebidos. Por outro lado, também estamos a assistir a um aumento real da transmissão de agentes patogénicos entre espécies», acrescenta Gerardo Ceada. «Estes casos são conhecidos como “zoonoses”», explica José, «e estima-se que sejam responsáveis por cerca de 70% das novas doenças que observamos atualmente».

 

A favor do vento

O facto de um vírus vir a tornar-se um problema de saúde pública raramente depende do acaso. Por trás da maioria das doenças emergentes estão fatores ambientais, sociais e demográficos que criam o cenário perfeito para que um agente patogénico salte de uma espécie para outra e, posteriormente, encontre uma forma de se propagar.

«Sabemos bastante bem quais são os fatores que favorecem o surgimento e a propagação destas doenças, e muitos deles estão a intensificar-se», salienta José. «Um dos mais importantes é as alterações climáticas, que estão a alterar a distribuição das espécies capazes de atuar como reservatórios ou vetores de doenças. Um bom exemplo disso é o mosquito-tigre, cada vez mais comum na Europa, capaz de transmitir vírus como da dengue, da zika e da chicungunha».

A isto acrescentam-se a desflorestação, a urbanização e a crescente mobilidade internacional. «O contacto entre as pessoas e a fauna selvagem é cada vez mais próximo, ao mesmo tempo que as deslocações facilitam a rápida propagação de um surto local», explica o investigador. A epidemia de ébola de 2014 é um exemplo disso: um surto que provavelmente teve início numa pequena localidade da Guiné, quando uma criança de dois anos entrou em contacto com morcegos enquanto brincava, acabou por se propagar, dando origem à maior epidemia desta doença registada até à data.

José Muñoz

Por último, outros fatores como a pobreza, os conflitos armados, as migrações e a fragilidade de alguns sistemas de saúde completam o panorama. «Nestes contextos, torna-se mais difícil detetar precocemente novos agentes patogénicos e responder rapidamente, o que aumenta o risco de um surto local acabar por assumir uma dimensão muito maior», acrescenta José.

 

Sempre um passo à frente

Durante décadas, os sistemas de alerta epidemiológico basearam-se principalmente na chamada vigilância passiva: são os hospitais e os centros de saúde que notificam os casos quando estes já se manifestaram. «É um sistema que funciona, mas, por vezes, os casos são detetados tarde ou não chegam a ser devidamente notificados», explica José Muñoz. «O desafio agora consiste em passar para uma vigilância ativa, ou seja, não esperar que um surto se torne evidente, mas procurar os primeiros sinais que indiquem que algo invulgar está a acontecer».

E graças à tecnologia, esta mudança está a tornar-se possível: desde os algoritmos de IA capazes de analisar milhões de dados clínicos em tempo real até à análise genómica das águas residuais para detetar agentes patogénicos antes que se propaguem, passando pela vigilância digital com base em pesquisas na Internet ou conversas nas redes sociais e até mesmo pela utilização de imagens de satélite para monitorizar variáveis climáticas relacionadas com determinadas doenças. Estes são apenas alguns exemplos.

«Estamos a viver um momento emocionante», afirma o investigador. «Há equipas multidisciplinares a trabalhar com estas tecnologias para detetar eventos de forma precoce e responder mais rapidamente. Ainda há um longo caminho a percorrer, especialmente no que diz respeito à coordenação de todos estes sistemas, mas estamos a avançar na direção certa.»

 

Importância da prevenção

Essa mudança de paradigma já está a dar origem a novas ferramentas concretas, capazes de antecipar o risco.

Uma delas é a Famba, uma plataforma desenvolvida pela equipa de José Muñoz que utiliza inteligência artificial para integrar informações epidemiológicas, climáticas e de mobilidade, com o objetivo de prever o risco de doenças infeciosas.

Aplicação Famba

A plataforma oferece recomendações personalizadas aos viajantes internacionais – por exemplo, estimando o risco real de contrair dengue em função do destino, da época do ano ou das condições ambientais –, mas também funciona como um sistema de vigilância coletiva. Identificar as situações que são habituais em cada região e detetar desvios permite acelerar a resposta dos serviços de saúde.

Outra forma de prevenir uma pandemia consiste em estudar os vírus antes mesmo de estes encontrarem um novo hospedeiro. Esse é o objetivo do Zoorganoids™, o biobanco de organoides animais do IRTA, onde trabalha Gerardo Ceada. Graças aos organoides cultivados a partir de células estaminais de mais de 40 espécies animais, a equipa pode analisar como os vírus interagem com diferentes hospedeiros sem necessidade de realizar experiências com animais vivos.

Esquerda: Organoides pulmonares de porco infetados com o vírus da gripe A (H1N1) suína. Citoesqueleto a branco, núcleos em ciano e vírus em magenta. Direita: Tanque de azoto com amostras de organoides.

«Podemos infetar organoides de inúmeras espécies com o mesmo agente patogénico para identificar os animais que poderão ser suscetíveis de desenvolver a infeção, mesmo antes de esta ocorrer na natureza», explica Gerardo Ceada.

Embora utilizem estratégias muito diferentes, projetos como o Famba e o Zoorganoids™ partilham a mesma ideia: a abordagem One Health, segundo a qual a saúde humana não pode ser entendida de forma isolada.

«Durante décadas, a saúde humana, a saúde animal e o ambiente foram estudados separadamente. Hoje sabemos que fazem parte do mesmo sistema», explica José Muñoz.

 

Um futuro que pode ser evitado

Provavelmente não conseguiremos impedir o surgimento de novos vírus. Enquanto existirem agentes patogénicos capazes de saltar de uma espécie para outra, continuarão a surgir doenças emergentes. Contudo, isso não significa que estejamos condenados a repetir uma crise como a da COVID-19.

«As pandemias não são totalmente evitáveis, mas são cada vez mais preveníveis e controláveis», conclui Gerardo Ceada. O segredo está em detetar as ameaças o mais cedo possível, compreender melhor a forma como os agentes patogénicos evoluem e agir de forma rápida e coordenada antes que um surto local se transforme num problema global.

A verdade é que a possibilidade de uma doença X continuará sempre a existir em algum lugar do planeta. E o objetivo final é claro: sermos capazes de a conter e até mesmo de a eliminar antes que se espalhe. No entanto, como salienta José Muñoz, «se conseguirmos a deteção precoce da doença e uma resposta rápida e coordenada, já teremos alcançado muito. Esse é o objetivo atual».

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