Terça-feira 28

Instantâneo do mês: “Devir”

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As formas fluidas e abstratas da natureza têm a capacidade de inspirar tanto um avanço científico como uma obra de vanguarda. O instantâneo deste mês situa-se precisamente nessa fronteira: uma imagem que representa uma descoberta fundamental na regulação da fertilidade humana, mas que, ao olhar artístico, evoca o crescimento orgânico das esculturas de Jean Arp

Para analisar este instantâneo pertencente a um estudo publicado na revista Science propomos um cruzamento de perspetivas: a artística e a científica. A abordagem científica é apresentada por Eva González Suárez, diretora do estudo, investigadora e chefe do Grupo de Transformação e Metástase do Centro Nacional de Investigaciones Oncológicas (CNIO), e por Alejandro Collado, investigador do mesmo grupo e primeiro autor do estudo. A perspetiva artística é apresentada por Eva Camba Pérez, Associate Art Director do estúdio Electric Square, onde trabalha no desenvolvimento de videojogos AAA; em 2019, concluiu um mestrado em Entretenimento Interativo na University of Central Florida, graças a uma bolsa de pós-graduação no estrangeiro da Fundação ”la Caixa”. 

Começamos pela artista. 

Eva Camba Pérez

Eva, que obra e corrente artística esta imagem lhe faz lembrar?

Eva Camba (E. C.): Faz-me lembrar o dadaísmo, especialmente as esculturas orgânicas e biomórficas de Jean Arp, como Growth e Bust of gnome. Os volumes suaves e abstratos evocam o crescimento ou a transformação de um organismo vivo. Arp criava formas inspiradas na natureza (folhas, sementes ou células) sem as representar de forma literal. Esta imagem transmite exatamente essa mesma ambiguidade entre formas biológicas e arte abstrata. 

Growth, escultura de Jean Arp (1938) / Fonte: Guggenheim 

Em contrapartida, a composição e as cores profundas sobre um fundo liso fazem-me lembrar as pinturas surrealistas de Joan Miró, outra figura fundamental das vanguardas que também se inspirava nas formas fluidas da natureza.

Litografia de Joan Miró, pertencente ao livro Le Lézard aux plumes d’or (1967), da Mourlot Editions, editado por Louis Broder / Fonte: Wright, Auctions of Art and Design

 

O que é que esta imagem lhe transmite?

E. C.: Evoca-me a evolução e a natureza em movimento; uma transformação constante a que eu chamaria “Devir”.

 

Continuamos com a investigadora e o investigador. 

Eva, do ponto de vista científico, o que representa esta forma verde?

Eva González (E. G.): A imagem (créditos: Nozha Borjini e Rafael Fernández Chacón, do Grupo de Fisiologia Molecular da Sinapse do Instituto de Biomedicina de Sevilla [IBiS, HUVR/CSIC/US] e do Centro de Investigación Biomédica en Red [CIBERNED]) mostra, a verde, as células da microglia e, a azul, os seus pontos de interação com os neurónios produtores de GnRH, a hormona libertadora de gonadotrofinas, que controla a reprodução e a puberdade. A imagem da esquerda pertence a ratos do grupo de controlo e a da direita, a ratos sem a proteína RANK. Sem esta, as células da microglia são mais pequenas, têm menos ramificações e interagem menos com os neurónios GnRH. 

Eva González Suárez e Alejandro Collado / Créditos: Centro Nacional de Investigaciones Oncológicas (CNIO)

 

E o que descobriram sobre o papel da proteína RANK? 

Alejandro (A): A principal descoberta foi a de que a proteína RANK, conhecida pelo seu papel nos ossos e na mama, também é fundamental para a fertilidade. Ao estudá-la em animais, verificámos que a sua ausência altera o eixo reprodutor e reduz drasticamente as hormonas sexuais (estrogénios e testosterona), com a consequente diminuição da fertilidade em fêmeas e machos. Além disso, identificámos mutações no gene da RANK em pessoas com hipogonadismo hipogonadotrópico congénito, uma doença rara associada ao desenvolvimento sexual e à infertilidade, o que reforça a sua importância na fertilidade humana. 

E. G.: Outra descoberta fundamental foi a de que este processo é controlado pelas células da microglia, células imunitárias do cérebro. Descobrimos que, além de eliminarem neurónios danificados ou de agirem perante infeções, estas células têm outra função: ajudar a regular os neurónios produtores de GnRH do hipotálamo, responsáveis por controlar a fertilidade. Mais concretamente, a RANK regula a atividade da microglia, afetando a sua comunicação com esses neurónios e a sua função. Resumindo, descobrimos que uma proteína conhecida pelo seu papel noutros órgãos é também essencial para o controlo do sistema cerebral que regula a fertilidade.

 

Alejandro, que questão esta descoberta resolve e como é que a resolveram?

A: Esta descoberta responde à questão de como é controlado o início da puberdade e a fertilidade nos mamíferos. Embora se soubesse da existência de uma rede de neurónios envolvida neste processo, desconhecia-se o papel da proteína RANK, bem como o facto de o sistema imunitário estar envolvido

Para investigar esta questão, utilizámos uma abordagem combinada. Em primeiro lugar, realizámos estudos em modelos animais, eliminando a proteína RANK (em todo o organismo ou na microglia) para observar os seus efeitos no desenvolvimento sexual e na fertilidade. Em seguida, analisámos dados genéticos de doentes com uma doença rara que causa infertilidade, tendo identificado mutações no mesmo gene. Por fim, estudámos a forma como a microglia comunica com esses neurónios para compreender o mecanismo que liga todo o sistema. 

 

Eva, que impacto acha que esta descoberta terá na sociedade?

E. G.: Identificámos um novo mecanismo biológico que liga o sistema imunitário do cérebro à fertilidade. Isto abre caminho a novas vias de diagnóstico, como no caso do hipogonadismo hipogonadotrópico congénito, uma doença em que metade dos casos não tem causa genética conhecida e na qual detetámos mutações na RANK em 1% dos doentes. A longo prazo, e com mais investigação, esta descoberta poderá contribuir para o desenvolvimento de terapias contra a infertilidade, através da modulação do sistema imunitário ou da via RANK. Além disso, abre uma nova linha de estudo para explorar se a microglia regula outras funções do hipotálamo, como o apetite, o stress e a temperatura, ou patologias que vão desde certas doenças degenerativas até ao cancro. 

 

Como sempre, terminamos com uma reflexão sobre a ciência e a arte. Eva, que relação acha que existe entre ambas?

E. C.: A arte e a ciência são duas faces da mesma moeda: a necessidade humana de compreender o mundo. Sempre estiveram intimamente relacionadas. Foi na era moderna, devido à especialização do conhecimento, que passaram a ser entendidas como disciplinas separadas. Hoje, essa linha de demarcação esbateu-se. Nas indústrias criativas, como a animação e os videojogos, ser artista requer conhecimentos de matemática, informática e programação, e as equipas integram, além de artistas que orientam o conceito visual, engenheiros e investigadores para desenvolver o software que permite representar imagens digitais realistas, o que muitas vezes requer conhecimento científico e um estudo exaustivo do tema a ser representado.

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