Quinta-feira 18

O que sabemos sobre a relação entre o álcool, a dieta mediterrânica e a saúde?

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O impacto do consumo de álcool na saúde é elevado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos ocorrem 2,6 milhões de mortes atribuíveis ao consumo de álcool em todo o mundo. Além disso, cerca de 400 milhões de pessoas sofrem de perturbações relacionadas com o consumo de álcool e, destas, 209 milhões vivem com dependência.

Em Espanha, o álcool é a segunda causa evitável de mortalidade, sendo responsável por cerca de 4% das mortes todos os anos e tendo um impacto especialmente elevado na população jovem.

O consumo de álcool está associado ao desenvolvimento de inúmeras doenças hepáticas, gastrointestinais e pancreáticas, a perturbações cardiovasculares e neurológicas, e a diferentes tipos de cancro, entre os quais o da mama, do fígado, do esófago e da cavidade oral. A isto acrescenta-se o seu papel em acidentes de viação, lesões, violência e problemas sociais e de trabalho. 

No entanto, existem também estudos observacionais que apontam para os possíveis benefícios do consumo baixo ou moderado de álcool para a saúde e que indicam um menor risco cardiovascular e uma menor mortalidade em comparação com os grandes consumidores e, por vezes, até mesmo com os abstémios, o que tem contribuído para um debate científico e social complexo. Além disso, estes resultados revelaram-se mais consistentes nos casos em que foi seguido um padrão de dieta mediterrânica, com consumo de álcool em pequenas quantidades e às refeições, nomeadamente vinho e, de preferência, tinto, distribuído ao longo da semana e sem episódios de consumo intensivo. 

Este cenário representa um desafio para a saúde pública e para os profissionais de saúde. Como devem ser interpretados estes resultados? Como avaliar os possíveis benefícios face aos riscos? Deve transmitir-se uma mensagem simples de abstinência total ou convém incluir nuances relacionadas com a idade, o sexo ou o padrão de consumo?

Estas são algumas das questões que estiveram no centro do último Debate sobre Investigação em Biomedicina e Saúde (realizado a 3 de junho no âmbito do Ciclo de Prevenção e Promoção da Saúde promovido pela Fundação ”la Caixa”), com a participação de dois especialistas de renome, os catedráticos Raúl Andrade Bellido e Miguel Ángel Martínez González.

  • Miguel Ángel Martínez González é professor catedrático de Medicina Preventiva e Saúde Pública na Universidade de Navarra e professor visitante de Nutrição na Harvard T.H. Chan School of Public Health.
  • Raúl Andrade Bellido é professor catedrático de Medicina na Universidade de Málaga, chefe do Serviço de Aparelho Digestivo do Hospital Universitário Virgen de la Victoria e investigador responsável pelo grupo de Hepatologia, Gastroenterologia, Farmacologia e Terapêutica Clínica Translacional no Instituto de Investigação Biomédica de Málaga.

No artigo que se segue, apresentaremos os pontos-chave que os dois especialistas destacaram durante o debate, moderado por Beatriz Pérez, jornalista da secção de Saúde do El Periódico de Catalunya.

Beatriz Pérez

 

O IMPACTO DO CONSUMO DE ÁLCOOL E A SUA PERCEÇÃO PELA SOCIEDADE

Quantas mortes causa o álcool?

«Em Espanha, entre 17 000 e 20 000 mortes por ano, o que representa cerca de 4% da mortalidade total. Ou seja, o álcool é um dos fatores de risco mais importantes, especialmente quando se trata do consumo excessivo e do binge drinking ou consumo excessivo de álcool numa única ocasião.» – Miguel Ángel Martínez González

Que doenças causa o álcool?

(Durante o debate, foi projetado um gráfico da Organização Mundial da Saúde ao qual se faz referência a seguir e que pode ser consultado ao minuto 03:15 do vídeo do encontro).

«De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde, existem perturbações definidas pela sua relação com o álcool, como a miocardiopatia alcoólica e a perturbação por uso de álcool. 42% dos casos de cirrose são atribuíveis ao álcool. Em alguns tipos de cancro, como o da faringe, da boca e do lábio, as percentagens de casos atribuíveis ao álcool situam-se entre os 28% e os 35%. O consumo de álcool está também associado a automutilação, suicídios e violência interpessoal. Além disso, é responsável por um quarto das mortes em acidentes de viação e um quarto dos casos de pancreatite. Em certa medida, os cancros do esófago, da laringe, do cólon e reto, do fígado e da mama também podem estar relacionados com níveis elevados de álcool no sangue. Está também associado a mortes por tuberculose, vários tipos de traumatismos, epilepsia, queimaduras, acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos e cardiopatias hipertensivas.» – Miguel Ángel Martínez González 

Porque é que o álcool afeta mais as mulheres do que os homens?

«As mulheres têm uma menor capacidade de metabolizar o álcool no estômago, que é o principal local de absorção do álcool, e no intestino. Além disso, os fatores hormonais e a distribuição da gordura corporal também parecem aumentar a suscetibilidade das mulheres aos efeitos tóxicos do álcool.» – Raúl Andrade Bellido

Será que em Espanha se compreende realmente os riscos e a toxicidade do álcool?

«O consumo de álcool é um hábito muito antigo. Alguns estudos indicam que existe há mais de 8000 anos, associado não só às refeições, mas também à socialização, à celebração de acordos e a contextos festivos. É uma tradição milenar que podemos encontrar em textos como a Bíblia, para não ir mais longe. Culturalmente, é um hábito muito enraizado, pelo que é difícil percecionar os riscos. Todas as pessoas sabem que o consumo de tabaco não traz qualquer benefício para a saúde, mas o mesmo não se pode dizer do álcool. As bebidas alcoólicas, sobretudo as de menor teor alcoólico, como o vinho, contam com muita literatura científica que, com muitas ressalvas, sugere que poderiam trazer algum benefício para a saúde, embora seja sempre importante sublinhar que tudo depende da dose total consumida e que, em doses elevadas, o efeito benéfico é anulado.» – Raúl Andrade Bellido

Raúl Andrade Bellido

 

O ÁLCOOL E O RISCO DE CANCRO

Existe uma relação entre o consumo de álcool e o cancro da mama?

«O consumo de álcool é a causa de 4% dos casos de cancro da mama. Embora possa parecer uma percentagem pequena, temos de ter em consideração que o cancro da mama é o tipo de cancro mais diagnosticado nas mulheres e constitui uma causa muito importante de morte. Estes 4% têm uma grande importância na saúde pública.» – Miguel Ángel Martínez González

A que outros tipos de cancro está o álcool claramente associado?

(Durante o debate, foi projetada uma imagem e um gráfico aos quais se faz referência a seguir e que podem ser consultados ao minuto 09:30 do vídeo do encontro).

«Para além do cancro da mama, foi estudada a relação entre o consumo de álcool e o cancro da boca, do lábio, da garganta, da laringe, da faringe, do esófago, do fígado e do cólon e reto. Todos estes tipos de cancro são designados por cancros associados ao álcool, porque o álcool constitui um fator de risco fundamental, embora em diferentes graus. Além disso, em muitos deles, alguns estudos demonstraram que, quando há consumo simultâneo de tabaco e álcool, o efeito é multiplicado. Existe uma sinergia muito forte, porque o álcool é um excelente solvente e os agentes cancerígenos do tabaco penetram nas células e causam mais danos graças a esse solvente. Além disso, o álcool inibe a função de algumas enzimas responsáveis pela desintoxicação.» – Miguel Ángel Martínez González

É possível saber que parte da população feminina apresenta maior risco de cancro da mama devido ao consumo de álcool?

«Não sou especialista em cancro da mama, mas tenho a impressão de que, atualmente, não existem ferramentas úteis para identificar que mulheres têm maior risco de desenvolver esta doença devido ao álcool; há fatores genéticos, epigenéticos e ambientais que influenciam. Nas doenças que melhor conheço, as do fígado, é claramente assim: não é possível distinguir os indivíduos que irão desenvolver a doença entre aqueles que consomem álcool.» – Raúl Andrade Bellido

«O risco é maior na pós-menopausa, mas há três momentos na vida de uma mulher que são fundamentais para o risco de cancro da mama: a menarca, o primeiro parto e a menopausa. Quanto mais cedo ocorrer a primeira menstruação e quanto mais tarde surgirem o primeiro filho e a menopausa, maior é o risco de cancro da mama. Tudo tem que ver com os ciclos hormonais, e o álcool também interfere neles.» – Miguel Ángel Martínez González

 

A IMPORTÂNCIA DOS HÁBITOS DE CONSUMO E OS SEUS EFEITOS

(Durante o debate, foi projetado um gráfico ao qual se faz referência a seguir e que pode ser consultado ao minuto 16:46 do vídeo do encontro).

Qual é o risco cardiovascular associado ao consumo de álcool?

«Depende muito da quantidade consumida e ainda há muito por investigar, muitas questões por esclarecer. Existe uma publicação que reúne os resultados de 28 estudos epidemiológicos observacionais em que foram observados quase 50 000 casos de enfarte do miocárdio ou outras manifestações de doença coronária, como a morte súbita cardíaca. Esta publicação revela que o menor risco de doença coronária corresponde a um consumo de 20 gramas de álcool por dia. Trata-se de um consumo baixo, o equivalente a um copo de vinho com cerca de 120 centímetros cúbicos. Esta quantidade está associada a um menor risco de doença cardiovascular, mas, se se ultrapassar este valor, o risco dispara. Pensando no futuro, é importante ir além dos estudos observacionais e realizar estudos de intervenção, nos quais se ajuda as pessoas a mudar os seus hábitos de consumo de álcool, para analisar de que forma os riscos diminuem.» – Miguel Ángel Martínez González

Miguel Ángel Martínez González

Que riscos acarreta o consumo de grandes quantidades de álcool apenas ao fim de semana, o chamado binge drinking?

«Tem um efeito sobre o sistema nervoso, é muito prejudicial e causa danos neurológicos de forma muito evidente.» – Raúl Andrade Bellido

«Há efeitos muito acentuados na perda de substância cinzenta, sobretudo em adolescentes e jovens que consomem grandes quantidades de álcool aos fins de semana. Além disso, abranda o crescimento da substância branca. Também foram observadas lesões mais graves, como a formação de zonas vazias nos ventrículos cerebrais. Com este padrão de consumo, verificou-se um efeito tóxico muito maior no cérebro e um aumento do risco de mortalidade prematura.» – Miguel Ángel Martínez González

O que se entende por consumo excessivo de álcool numa única ocasião?

«Para um homem, consumir cinco unidades de bebida numa tarde ou numa noite; para uma mulher, quatro. Quando falamos de uma unidade de bebida, é preciso pensar no equivalente em função do teor alcoólico da bebida que se consome.» – Miguel Ángel Martínez González

O consumo de álcool afeta a tomada de decisões e o controlo das emoções?

«O álcool é uma substância viciante. Se o doente for alcoólico, ou seja, se precisar do álcool para manter o seu funcionamento quotidiano, então essa substância irá, de facto, influenciar muito a sua capacidade de tomar decisões, porque estará totalmente condicionado por essa dependência, bem como as suas emoções. O consumo de álcool influencia o desenvolvimento de comportamentos violentos. No entanto, em pessoas sem dependência, com um consumo moderado, não deverão ocorrer alterações significativas do humor, do comportamento, do estado de espírito nem da capacidade de tomar decisões.» – Raúl Andrade Bellido

 

POSSÍVEIS BENEFÍCIOS DO CONSUMO MODERADO DE ÁLCOOL E DA DIETA MEDITERRÂNICA

O consumo baixo ou moderado de álcool pode reduzir o risco cardiovascular?

(Durante o debate, foi projetado um gráfico ao qual se faz referência a seguir e que pode ser consultado ao minuto 26:37 do vídeo do encontro).

«É preciso ter muito cuidado com estas afirmações. Um dos professores do nosso departamento, Alfredo Gea, realizou um estudo no âmbito do projeto SUN (Seguimiento Universidad de Navarra), no qual participaram mais de 18 000 voluntários ao longo de 12 anos. Uma das observações foi que, com a mesma quantidade total de álcool ingerida, nos casos em que se verificava um padrão de consumo associado à dieta mediterrânica (denominado MADP, Mediterranean Alcohol Drinking Pattern, caracterizado pelo consumo de vinho tinto, ingerido de forma moderada e às refeições, e distribuído ao longo de toda a semana), os riscos cardiovasculares e a mortalidade a longo prazo diminuíam. Este estudo foi replicado noutros países, tendo-se constatado que o efeito do etanol parece ser influenciado pelo padrão de consumo.» – Miguel Ángel Martínez González

O que significa consumo moderado?

«Não se deve beber mais de um copo de vinho por dia, no caso das mulheres, e dois, no caso dos homens. E estamos a falar de copos pequenos, com pouco mais de 100 centímetros cúbicos. Além disso, o vinho parece ser preferível a outras bebidas e, entre os vinhos, dá-se preferência ao tinto. Isto deve-se ao facto de o vinho tinto conter uma série de compostos fenólicos, antioxidantes e anti-inflamatórios que têm efeitos bioquímicos benéficos. São efeitos que praticamente não foram observados na cerveja. Por outro lado, as bebidas com elevado teor alcoólico são as que mais irritam o trato digestivo e as que mais aumentam o risco de cancro.» – Miguel Ángel Martínez González

Como é que o consumo de álcool se enquadra na dieta mediterrânica?

«A dieta mediterrânica é, neste momento, o paradigma de alimentação saudável a nível mundial. Não há nenhuma outra dieta que reúna tantas evidências científicas no que diz respeito à prevenção de doenças e da mortalidade precoce. Em todas as descrições desta dieta, sempre se incluiu um copo de vinho por dia à refeição. São, contudo, necessários estudos mais abrangentes para determinar se este é um hábito saudável ou se existem alternativas melhores.» – Miguel Ángel Martínez González

O que é o ensaio UNATI e como pretende estudar estes possíveis benefícios?

(Durante o debate, foi projetada uma representação do projeto experimental do estudo UNATI e um gráfico aos quais é feita referência a seguir e que podem ser consultados ao minuto 26:11 e ao minuto 33:34 do vídeo do encontro).

«O UNATI, financiado integralmente pelo European Research Council (ERC), é um ensaio clínico randomizado que irá acompanhar, durante 4 anos, cerca de 10 000 pessoas – homens com idades compreendidas entre os 50 e os 70 anos e mulheres com idades compreendidas entre os 55 e os 75 anos – que bebem entre 3 e 40 unidades de bebida por semana. É uma aventura científica em que se envolveram mais de 500 médicos e investigadores de toda a Espanha. Este estudo é conduzido pelo Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de Navarra e será o maior estudo alguma vez realizado a nível mundial sobre os efeitos do consumo moderado de álcool.» – Miguel Ángel Martínez González

«Convidamos participantes que já bebem e colocamos à sua disposição psicólogos, nutricionistas, médicos e enfermeiros para lhes darem conselhos sobre como tornar os seus hábitos de consumo de álcool mais saudáveis. O objetivo é ir avaliando as consequências dessas mudanças.» – Miguel Ángel Martínez González

«Até ao momento, contamos com pouco mais de 9200 voluntários recrutados, que já foram inscritos pelos seus médicos, e mais de 7800 deles já foram submetidos a intervenção pela nossa equipa de profissionais. Até 30 de junho, continuamos à procura de voluntários que queiram juntar-se a nós para atingirmos a meta de 10 000 participantes. Poderão obter todas as informações no site do estudo UNATI e inscrever-se através do formulário de participação.» – Miguel Ángel Martínez González

 

RISCOS DO CONSUMO EXCESSIVO DE ÁLCOOL

O que é a hepatite alcoólica aguda?

«A mortalidade atribuída ao álcool devido a doenças hepáticas ocorre em idades relativamente jovens, entre os 45 e os 55 anos. A hepatite alcoólica é pouco frequente, mas muito grave e apresenta uma elevada taxa de mortalidade. Já vi doentes a superar a doença, a ficarem sem consumir álcool durante algum tempo, a terem uma recaída, a serem readmitidos e a morrerem. Isto mostra o efeito devastador que o consumo descontrolado de álcool tem.» – Raúl Andrade Bellido

Que relação existe entre o consumo de álcool e a pancreatite crónica? 

«É menos frequente, mas é causada quase exclusivamente pelo abuso de álcool. Provoca uma insuficiência exócrina do órgão, que altera significativamente a digestão, e é também um fator de predisposição para o cancro do pâncreas. O consumo de álcool acarreta muitos efeitos tóxicos e, na verdade, quando nos deparamos com estas situações na prática clínica, ficamos emocionalmente abalados.» – Raúl Andrade Bellido

 

A MENSAGEM QUE DEVERIA CHEGAR À POPULAÇÃO

Será que a mensagem de que o consumo moderado pode trazer alguns benefícios pode acabar por ser contraproducente?

«O que me preocupa é incentivar o consumo. É um pau de dois bicos, porque esta mensagem pode ser mal interpretada. Uma coisa é um estudo demonstrar que uma pessoa que bebe um copo de vinho por dia, em determinadas condições, obtém alguns benefícios para a sua saúde cardiovascular; outra é começar a consumir álcool à procura desses benefícios. Além disso, existe sempre o risco de criar dependentes; é um problema que teremos sempre em cima da mesa. – Raúl Andrade Bellido

«Existe também a dificuldade de transpor os resultados de um estudo deste tipo para um indivíduo em concreto. Cada pessoa tem as suas condições físicas e o álcool não afeta todas as pessoas da mesma forma. Por exemplo, cerca de 40% da população adulta tem a doença metabólica causada pela acumulação de gordura no fígado, mas muitas pessoas não sabem que a têm. Está associada à obesidade, à diabetes, etc. Verificou-se que, neste caso, o consumo de álcool acelera a progressão da doença. – Raúl Andrade Bellido

«Do ponto de vista da saúde pública, não se pode encorajar ninguém a começar a beber álcool por motivos de saúde, nem a aumentar o seu consumo habitual.» – Miguel Ángel Martínez González

Será mais aconselhável optar pela abstinência total?

«A mensagem deve ser que a pessoa abstémia deve continuar assim. Em caso algum devemos passar a mensagem de que incentivamos o consumo. E, no que diz respeito aos que bebem com moderação, veremos nos resultados do estudo UNATI se poderão manter um consumo moderado. Em qualquer caso, é preciso ter muito cuidado com as recomendações e garantir que a população compreenda que quem nunca bebeu álcool deve manter-se abstémio.» – Raúl Andrade Bellido

 

O CONSUMO DE ÁLCOOL ENTRE OS JOVENS

Cerca de 30% dos jovens espanhóis de 18 anos têm uma intoxicação alcoólica uma vez por mês, uma percentagem muito superior à de outros países. Porque é que isto acontece em Espanha?

(Durante o debate, foi projetado um quadro e alguns gráficos com dados do Plano Nacional de Combate às Drogas aos quais se faz referência a seguir e que podem ser consultados ao minuto 50:50 do vídeo do encontro).

«Penso que, entre os jovens, se enraizou a ideia de que sem álcool não há festa, algo que se manifesta especialmente aos fins de semana e que também conduz a uma perda da noção do tempo e da realidade, o que resulta em ritmos circadianos completamente alterados. A percentagem de rapazes e raparigas dos 15 aos 19 anos que consomem álcool em Espanha é de 57%, enquanto, a nível mundial, é de 25%. Destaca-se o facto de a prevalência de episódios de embriaguez ser maior nas raparigas do que nos rapazes. São dados do Plano Nacional de Combate às Drogas. Estamos perante um problema de saúde pública gravíssimo. Os jovens quase não correm risco de sofrer um enfarte ou de ter diabetes, mas correm risco de sofrer de depressão, de cometer suicídio ou de se envolver em acidentes de viação.» – Miguel Ángel Martínez González

O consumo de álcool entre os jovens é um problema de saúde pública?

«Acho que sim. E acho que as autoridades estão a começar a tomar consciência disso; estão a começar a surgir regulamentações e campanhas para tentar reduzir o consumo de álcool. As concentrações de jovens em espaços públicos para beber álcool em grupo eram muito comuns nas cidades há alguns anos e hoje praticamente já não se veem.» – Raúl Andrade Bellido

O desporto pode compensar os efeitos do consumo de álcool?

«O álcool tem um efeito desidratante. O que um desportista deve fazer é manter-se bem hidratado e tentar repor o líquido perdido, mas não com bebidas alcoólicas.» – Miguel Ángel Martínez González

«Não tenho conhecimento de que o desporto contrarie de alguma forma os efeitos negativos do álcool. Considero muito negativo associar o sucesso desportivo ao álcool, como acontece nas campanhas publicitárias. A seleção espanhola de futebol, que vai começar o Mundial dentro de alguns dias, é patrocinada por uma marca de cerveja.» – Raúl Andrade Bellido

Que mensagem deve ser transmitida aos jovens?

«Em Espanha, beber álcool e tornar-se alcoólico é muito barato. Se formos ao supermercado, podemos comprar uma garrafa de vinho por um euro e meio, ou menos, o mesmo preço de uma garrafa de água, e isto acontece porque o álcool não está sujeito a uma tributação especial. Acho que, se quisermos reduzir o consumo de álcool, teremos de tomar medidas para tornar o acesso ao álcool mais caro.» – Raúl Andrade Bellido

«A mensagem para os jovens deve ser a de que nunca comecem a consumir álcool. Se nunca beberam, que não tentem imitar os amigos. Beber não lhes vai facilitar a socialização nem os vai tornar mais populares.» – Raúl Andrade Bellido

«O álcool não é o grande facilitador social que muita gente pensa. Na realidade, é o grande sabotador. Muitas festas acabam mal precisamente devido ao consumo de álcool. A ideia de que não há festa sem álcool é um mito.» – Miguel Ángel Martínez González

 

UM APELO À PARTICIPAÇÃO NA CIÊNCIA

«E aos mais velhos, encorajo-os a ajudarem-nos com o estudo UNATI e a inscreverem-se até 30 de junho. Todos são convidados a participar e a contribuir, desta forma, para aprofundar o conhecimento científico sobre o consumo moderado de vinho no contexto da dieta mediterrânica.» – Miguel Ángel Martínez González

 

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